11/07/2026

Enquanto você me ouvia...

Em mim, da mente as dores, a angústia entendia,
Mas tu, que as minhas loucuras com calma sopesavas,
No caos de minha mente a ordem semeavas,
No desespero escuro em que minha voz se perdia.
 
Dos meus excessos, nenhum juízo fizeste,
Me acolheu por inteira, costurada pelo tempo,
Passado, presente e futuro em um só movimento,
O meu olhar cansado e perdido aceitaste.
 
Em teu silêncio sereno, meus medos ganhavam calma,
És meu misto sagrado de prazer, anseio e de agonia,
Teu sorriso cúmplice se tornou minha doce heresia,
De tecer-me o passado e o porvir da minha inquieta alma.
 
Contudo, a hora amarga o destino decretou,
Tu me olhaste nos olhos, disse que precisava ir,
E o mundo, por um segundo, pareceu sumir,
E o eco do teu passo a urgência me roubou.
 
"Ir-me convém", disseste, e o mundo emudeceu,
Veio o abraço apertado, o nó que não desata,
Aquele que acolhe, mas que também maltrata,
No instante em que o teu corpo ao meu se submeteu.
 
E foi ali, no silêncio daquela despedida ingrata,
Daquele abraço estreito nasceram fogo e cruz,
A paixão que me assoma, a saudade que reluz.
Despedida ingrata que o desejo me desgarra!
 
Abalou-me o peito essa paixão tardia,
Partiste, sim, deixando a marca que esmaga,
E uma ausência infinita, que ninguém mais afaga,
Que hoje em solidão se verte em poesia.

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