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09/08/2026

Enquanto o silêncio dizia... (Trilogia: O Conto)

 Aquela tempestade de desabafos e escutas atentas já pertencia ao passado, e a cura começava a chegar. Ele restabelecera a ordem em seu caos interno, embora o peito ainda permanecesse habitado por um vazio febril.

Ela, sentada de frente para ele, de pernas cruzadas, o vestido ajustado ao corpo e os olhos sempre marejados.

Ele permanecia na poltrona oposta, de pernas abertas, as mãos entrelaçadas sobre os joelhos e a cabeça levemente inclinada. O olhar, porém, continuava atento, absorvendo cada palavra que saía de sua boca.

A memória, contudo, insistia em reencenar os diálogos que deveriam ser descritos naquele espaço. Ela já não falava linearmente; precisava apenas encontrar uma maneira de contar o que sentia.

— Eu não consigo encontrar as palavras certas para dizer o que realmente sinto aqui. Mas acho que, depois de toda a bagunça se organizar, fui envolvida por uma paixão repentina. Não entendo o porquê e não sei como descrevê-la — começou ela, com a voz veludosa e o olhar fixo no dele.

— Certas emoções surgem justamente quando a mente tenta reorganizar o caos. O afeto repentino, muitas vezes, é apenas a transferência da dor que se esvai, dando lugar ao novo, às possibilidades — respondeu ele, franzindo a testa e inclinando-se levemente para trás. Em seguida, retomou a postura, ajeitando os óculos.

Ela sorriu de canto, descruzando e recruzando as pernas em um movimento lento. Gostava de vê-lo desconcertado, tentando decifrá-la.

— Não é bem isso... O sentimento que tenho por esse alguém é grande demais para caber em diagnósticos, forte demais para permanecer guardado e bonito demais quando penso nele. Porém, existe um fervor, uma urgência que a ética não me permite ultrapassar — provocou ela, deixando o duplo sentido pairar entre os dois.

Ele permaneceu alguns segundos em silêncio, como quem organizava uma resposta. Ajustou os óculos novamente e o colarinho num gesto rápido de desconforto. Recompôs-se em instantes, mantendo a postura sóbria e o olhar compenetrado sobre ela.

— A ética nos protege de agir por impulsos momentâneos, permitindo que a razão separe o desejo e o que nos desborda; quando o sentimento parece urgente demais, é prudente observar a distância entre o que se projeta e a realidade do espaço em que estamos — disse ele, ajeitando as mãos e fingindo não compreender para preservar o enquadre.

— De fato. Mas o que devemos fazer quando nenhuma teoria apaga o desejo de estar junto? Se apenas um olhar intenso me deixa querendo ultrapassar a prudência deste espaço? — disse ela, inclinando o corpo com um brilho provocante nos olhos úmidos.

Ele sentiu o peso da provocação. Sustentou o contato visual por longos segundos sem piscar, a respiração ligeiramente mais acelerada, deixando escapar pela primeira vez uma fresta do que realmente sentia.

— Talvez — disse ele, a voz baixando meio tom, num tom mais íntimo, porém ainda contido — a verdadeira sabedoria não esteja em explicar o olhar e o desejo, mas em reconhecer que certas atrações simplesmente existem... mesmo quando precisamos aprender a conviver com o silêncio dela.

Ela suspirou devagar, o olhar perdendo-se por um instante na linha do horizonte fora da janela antes de retornar aos olhos dele.

— A vida realmente nos surpreende e nos coloca diante de situações que não sabemos como resolver... Onde o sentir e o dever caminham em direções opostas — disse ela, a voz carregada de uma doçura melancólica.

— Sim... Algumas rotas exigem renúncias que a razão mal consegue justificar — respondeu ele, a voz pausada. Fez um silêncio breve, buscando as palavras certas para o anúncio final. — E há caminhos que precisam mudar de rumo. Devo encerrar minhas atividades neste espaço em breve; me mudarei para outra cidade nos próximos dias.

Ela ficou imóvel. O impacto das palavras caiu sobre ela como um peso invisível. Não houve sobressaltos, apenas uma dor muda que lhe travou a fala. A fome de estar com ele colidiu com a certeza irreversível do fim. Baixou os olhos devagar e deixou que as lágrimas, reprimidas, escorressem silenciosas por seu rosto, desenhando a dor de um fim sem começo.

Ele a observou em silêncio, sentindo o peito oprimir-se diante daquele choro sereno e devastador.

Ela levantou-se com uma lentidão dolorosa, a postura ainda elegante, mas despida de qualquer provocação. Caminhou até a saída e virou-se uma última vez, olhando em seus olhos.

Sem dizer mais nada, ele se levantou e encurtou a distância entre os dois, envolvendo-a em um abraço.

Aquele gesto colapsou meses de contenção. O abraço apertado e demorado trouxe à tona tudo o que as palavras haviam calado: uma atração avassaladora, uma paixão represada e a dor da saudade que começava ali mesmo. No calor do peito dele e no perfume dos cabelos dela.

Os dois sentiram a urgência de um desejo mútuo e a lamentação silenciosa por uma paixão que nasceu perfeita, mas no tempo e no espaço errados.

14/01/2013

Cartas Guardadas lll

Cartas que foram escritas há muito
  tempo, no intuito de serem entregues
  e receber respostas. 
As próximas cartas revelarão
 segredos e sentimentos
 que não chegaram ao seu destino.



Breno, 
Não sei verbalizar sentimentos. Olhos nos olhos me deixa acanhada, limitando as palavras que deveriam ser ditas.
Então escrevo...

Esta é a terceira tentativa de lhe entregar uma carta. Se for do seu interesse, depois de ler esta, também posso lhe entregar as outras.

Depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que não posso mais guardar esse sentimento somente para mim. Estou me confessando, me declarando... seja como for, preciso dizer que gosto de você.

Esse sentimento está ficando mais forte a cada dia e já não consigo mais suportar ficar calada.

Hoje conversei com minha prima, que também é minha melhor amiga. Perguntei se ela havia percebido algum interesse seu por ela e se ela mesma sentia algo. Ela disse que não, que tudo não passava de uma história inventada pela molecada.

Enfim...

Eu não aguento mais pensar em como dizer isso e muito menos continuar rasgando papéis e recomeçando cartas.

Talvez você não esteja entendendo nada, mas a verdade é simples: eu gosto de você e não sei como falar, muito menos como demonstrar.

Tudo está estranho. Sinto que estou diferente. Não paro de pensar em você. Sinto ciúmes das amigas da sua irmã e aquela saudade que antes parecia apenas uma sensação agora realmente dói.

Tenho medo. Meu coração acelera quando vejo você, minha voz desaparece e, de repente, fico sem assunto.

Acho que ultrapassei meus próprios limites tentando suportar tudo em silêncio. Está me fazendo mal ficar parada quando eu poderia simplesmente dizer:

Eu gosto de você.

E gosto muito.

Quando mencionei seu sumiço naquele último dia em que nos vimos, você disse que eu estava diferente e que, por isso, não me chamava mais em casa.

Percebe como as coisas ao meu redor estão estranhas?

Eu peço desculpas. Como disse, estou mudando. Até meus pais perceberam que estou diferente, mais distraída e até mais rude.

Talvez seja porque tenho tantas coisas para dizer e não consigo.

Mas agora está dito.

Espero que compreenda essa mudança estranha e repentina.

Eu ainda quero dizer tudo isso e muitas outras coisas pessoalmente, mas primeiro leia esta carta. Depois penso no que fazer.

Termino deixando um beijo e um abraço, sem esquecer do perfume.

Esse perfume que ficava maravilhoso misturado ao seu quando nos abraçávamos.

Com amor...

Priscila R. ♥

As outras cartas podem ser lidas AQUI.

29/11/2012

O Atrevido




Eu gostava quando você chegava sem avisar, assim, de repente, sem antes me telefonar. Achava tão íntimo, tão atrevido, tão natural. Gostava justamente por ser atrevido e natural. Afinal, foi assim que te conheci: atrevido e natural.

Você não chegou perguntando meu nome, não perguntou se estava tudo bem ou se poderíamos conversar. Foi logo apontando o descosturado da minha blusa e dizendo que a cor marrom não combinava comigo. Eu adorei. Eu também nunca gostei de marrom.

Achei um encanto quando você chamou seus amigos pedindo que trouxessem cervejas, porque tinha conhecido uma “mina” bacana. Eu nunca gostei dessa palavra, mas em você ela ficou curiosamente bonita.

Também não gostei daquele seu amigo de topete ensebado. Para mim, aquilo era coisa de gente que não toma banho direito. Gostei mais do seu cabelo: bagunçado, do seu jeito.

Enfim...

Me despedir de você depois de meia hora de conversa com seus amigos, porque eu já não aguentava mais ouvir sobre futebol e mulheres, foi tão... tão... tão romântico.

Eu realmente não poderia imaginar aquele beijo surpresa acompanhado da frase:

“– Amanhã estarei aqui. Venha às 21h.”

Eu, sem jeito até para dizer um simples “quem mandou me beijar?”, não sabia se deveria repreender você ou a mim mesma por ter me deixado levar por um impulso — ou pela falta dele.

Mas sou obrigada a admitir: aquele beijo enfraqueceu qualquer possibilidade de dizer não naquele momento.

Como foi que começamos a namorar?

Ah, sim... naturalmente.

Lembrei.

Como poderia esquecer o dia em que você disse:

“– Vamos ali comigo.”

E eu, ingenuamente, disse sim.

Acho que sua mãe e eu fizemos a mesma cara de pastel quando você me apresentou a ela como sua namorada. A sorte daquele dia foi que, depois de um copo d’água, conseguimos conversar naturalmente.

Pois é...

Tão natural quanto incongruente, nossa repentina distância nos impossibilitou de cultivar qualquer laço. Talvez estivéssemos presos ao ciclo das idas e voltas repentinas, mas não naturalmente preparados para recomeçar e continuar.

Não me lembro do que não foi bom.

Que bom!


19/06/2012

Para onde vai a “soberbêz”


(Dois casos parecidos em 
um mesmo post, onde 
um caso é verídico e o 
outro nem tanto assim 
como narrei)

Ele sempre foi do tipo: "Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa."

Dono de uma beleza sublime, olhar encantador e sorriso perfeito. Tinha um corpo escultural, dourado pelo sol na medida certa e músculos bem definidos.

Como a aparência física sempre o favoreceu, acostumou-se a "escolher" as mulheres mais bonitas. Elegia uma a cada dia para se divertir.

Como ele mesmo dizia:

— Eu posso. Sou bonito, musculoso, charmoso, tenho carro e uma moto. Para estar ao meu lado, a mulher tem que ter, no mínimo, a perfeição.

Iludi-las tornou-se um hobby.

Dizia a cada uma que era única.

Só se esquecia de explicar que era a única da noite — e não da sua vida.

Pelo menos, ele nunca saía com várias no mesmo dia.

Ele gostava das recatadas.

A mulher digna de sua companhia era aquela que mal saía de casa, apenas trabalhava, estudava e ia à igreja aos fins de semana.

Balada?

Coisa de leviana.

Essas não serviam.

Ai dela se beijasse no primeiro encontro.

Ai dela beijasse de língua no segundo.

Ai dela sentir desejo no terceiro...

Também não servia.

A mulher ideal precisava se preservar.

Entretanto, não precisava mais ser virgem.

Porque, se não "rendesse" na cama...

Também não servia.

Chorar dizendo que o amava igualmente não adiantava.

Além de todos aqueles atributos, ela precisava ter faculdade e dinheiro no bolso.

Só mulheres bem-sucedidas eram dignas de andar em seu...

Gol Bolinha.

(Pois é. Gol Bolinha.)

Enfim...

Num belo dia — frio, muito frio — ele saiu do banho quentinho, escolheu a roupa, passou perfume e já tinha até decidido quem seria a mulher da noite.

Ao abrir a porta do banheiro, o choque entre o corpo aquecido e o vento gelado o fez passar mal.

Desmaiou.

Acordou dias depois no hospital.

Seu mundo perfeito terminara ali.

As sequelas mudaram seu rosto, seus movimentos e a maneira como enxergava a própria vida.

Ao olhar-se no espelho, via, refletida em cada lágrima, a imagem das mulheres que havia iludido.

Lembrou-se de tantas que choraram por sua causa.

Perdeu o carro.

Perdeu a moto.

Precisou vender tudo para custear o tratamento.

Afastado do trabalho, mal conseguia manter a própria casa.

Perdeu parte da beleza.

Perdeu a autoestima.

Perdeu o poder de sedução.

Já não era o mesmo homem.

Depois de algumas cirurgias, recuperou cerca de sessenta por cento do rosto.

Com muita terapia, aprendeu a aceitar a nova aparência.

E, com ainda mais esforço, mudou sua forma de enxergar as mulheres.

Agora...

Já não podia mais escolher.

Um dia, caminhando tristemente pelas calçadas do bairro, encontrou uma antiga colega de escola.

Era aquela menina que sentava sempre na primeira carteira.

A que quase não conversava com ninguém.

A que parecia carregar a rejeição nos ombros.

Os anos também não haviam sido generosos com ela.

Continuava distante dos padrões de beleza.

Mas havia algo que nunca lhe faltou.

Gentileza.

Seu jeito de falar transformava palavras em música.

Trocaram telefones.

E, quando a saudade daquela voz começou a apertar, ele ligou.

Convidou-a para sair.

Ela, sentindo-se quase agraciada pela sorte, aceitou.

No primeiro encontro, beijaram-se.

Fizeram amor.

Dormiram de conchinha.

Ali começava um relacionamento para toda a vida.

Fim feliz J 



06/05/2012

Ainda chove como antes

Era uma tarde chuvosa. O dia já estava terminando quando o telefone tocou. Atendi, mas ninguém respondeu. Havia tempos que, quase todos os dias, no mesmo horário, principalmente quando chovia, as ligações e o silêncio se repetiam.

Naquele dia, consegui ouvir um suspiro, como se, finalmente, a pessoa fosse dizer alguma coisa, mas desligou em seguida. Vieram-me à mente algumas lembranças, mas nada que me fizesse ter certeza ou sequer suspeitar de alguém. Pensei que talvez a chuva tivesse algum significado. Ela descartaria algumas possibilidades e ressaltaria outras. Enfim, deixei aquilo de lado, continuei meus afazeres e fui tomar um banho para encontrar alguns amigos mais tarde.

Já arrumada, quando estava prestes a sair de casa, fui interrompida pela lembrança do telefonema. Tive a sensação de que o telefone tocaria novamente, como se eu estivesse esperando mais uma ligação. Ao mesmo tempo, tentava lembrar de quem era aquela respiração quase expressiva. Alguém respirava daquele jeito... mas quem?

Como previ, o telefone tocou outra vez. Desta vez, atendi sem dizer nada. Do outro lado, a pessoa também permaneceu em silêncio. Ficamos assim por alguns segundos, até que ouvi novamente aquele suspiro. Logo depois, a ligação foi encerrada.

Desta vez senti uma necessidade enorme, quase incontrolável, de descobrir quem era. Senti saudade também. Saudade de alguém que eu não via havia muito tempo. E, ao pensar nessa pessoa, lembrei-me dos inúmeros banhos de chuva que tomamos em ocasiões imprevistas e inevitáveis. Sorri sozinha.

Por um instante, imaginei que pudesse ser ele. Mas a ideia logo se desfez quando me lembrei do fim do nosso relacionamento. Se, naquela época, o que sentíamos não foi capaz de superar a distância entre as cidades onde morávamos, não seria agora que algo mudaria. Creio que ainda vivemos em cidades diferentes. Não... não pode ser, pensei.

Senti tristeza. Vontade de chorar. Eu não queria me lembrar de uma época em que meus desejos foram interrompidos por uma distância tão tola, que nos obrigou a terminar algo que poderia ter sido tão bonito. Foi um período difícil, em que precisei reprimir o amor que sentia e inventar um novo caminho até conseguir me estabilizar. Eu o amei demais em tão pouco tempo de convivência.

A chuva passou. Peguei meu carro e saí sem rumo. Já havia me esquecido do encontro com os amigos e, para ser sincera, já não tinha ânimo para vê-los. Continuei dirigindo em círculos, tentando acalmar a saudade que insistia em permanecer comigo.

Em meio às ruas por onde passei, percebi que estava refazendo o mesmo caminho que fazia anos atrás para encontrá-lo nos dias de sol. Quase por impulso, continuei dirigindo até o canto da cidade que dava acesso ao lugar de onde podíamos contemplar toda a cidade. Era um lugar lindo.

Ao sair do carro, caminhei até a árvore onde demos nosso primeiro beijo. Senti um calafrio percorrer meu corpo. Veio o desespero, a tristeza, um nó na garganta... Lembrei-me de sentimentos que estavam guardados havia tanto tempo em meu subconsciente, impedindo que o consciente os trouxesse de volta.

Saí depressa daquele lugar que fazia meus olhos lacrimejarem. Depois de ouvir um trovão anunciar a volta da chuva, caminhei rapidamente até o carro. Nesse instante, meu celular tocou. Com a voz embargada, mal consegui dizer um simples "alô". Respirei fundo e, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ouvi a voz que eu mais desejava — e, ao mesmo tempo, menos esperava — dizendo para que eu não fosse embora.

— Everson? — respondi, ainda atordoada.

Ele disse que desceria de seu apartamento em dez minutos para me encontrar.

Apartamento? Pensei, completamente estonteada.

Foram os dez minutos mais demorados da minha vida. Então o vi caminhando em minha direção. Reconheci aquele corpo, aquele jeito de andar, mesmo de longe. Era ele.

Quando se aproximou, contou que havia se mudado para a minha cidade e comprado um apartamento com vista para aquela árvore. Era o único condomínio privilegiado com aquela paisagem. Perguntou por que eu ainda não havia trocado de carro e nem de número de telefone.

Mal consegui responder à primeira pergunta. Ele tocou meu rosto e me beijou, sem pedir permissão.

Correspondi ao beijo. Senti o lugar aquecer, percebi o canteiro de flores ao lado da nossa árvore e as luzes da cidade pareciam mais bonitas do que nunca. Então começou a chover.

Eu me entreguei mais uma vez. Dei uma nova chance para mim... e para o homem que eu nunca havia deixado de amar.


04/04/2012

Salto alto do Cupido



Era uma quarta-feira comum quando Luciana decidiu passar no bar depois do trabalho.

O lugar era conhecido, as mesas eram as mesmas, as conversas também. Naquela noite, apenas Paulinha estava por lá, dividindo as preocupações de sempre.

Quando decidiu ir embora, Luciana se levantou distraída. Em uma virada desajeitada de seu salto, perdeu o equilíbrio e caiu nos braços — ou melhor, no colo — de um desconhecido sentado à mesa ao lado.

Por um instante, o tempo pareceu diminuir.

Com o rosto corado e completamente sem reação, conseguiu apenas dizer:

— Desculpa.

Foi quando percebeu os olhos verdes que ainda não tinha notado.

Por alguns segundos esqueceu que estava no colo de um estranho.

Ao voltar à realidade, levantou-se rapidamente, ajeitou suas coisas espalhadas pelo chão e tentou recuperar a dignidade.

Paulinha assistia à cena em silêncio.

Não sabia se ajudava ou se ria.

Optou por observar. Afinal, algumas cenas merecem plateia.

O homem sorriu enquanto recolhia as pastas dela.

— Prazer, sou Alexandro.

Havia naquele sorriso uma tranquilidade de quem não se importava se aquela conversa começaria em uma cadeira ou em seu próprio colo.

Luciana não estava procurando por encontros naquela noite. Era apenas uma quarta-feira cansativa, daquelas em que tudo que se deseja é descansar a cabeça.

Mas também não era mulher de ignorar uma boa coincidência.

Deixou seu cartão sobre a mesa.

— Quem sabe a gente se encontra por aí... ou por aqui. Sexta-feira costuma ser mais tranquila.

Alexandro sorriu.

Talvez o salto tivesse feito mais do que derrubá-la.


Na sexta-feira, Luciana e Paulinha saíram do trabalho e passaram em casa antes de voltar ao bar.

Depois de um longo banho, escolheu seu vestido preferido e, claro, o salto que sempre fazia questão de usar.

Chegaram ao lugar de sempre, agora com música, movimento e mais tempo para conversar.

Ao perceber que o garçom demorava, Luciana foi até o balcão buscar sua bebida.

Quando voltou, virou-se distraída.

E perdeu novamente o equilíbrio.

Dessa vez, não caiu no colo de um desconhecido.

Caiu nos braços de Alexandro.

Ele havia acabado de chegar.

Paulinha?

Bom...

Paulinha sempre soube quando deixar o destino fazer seu trabalho.


A trilha sonora

Soneto do teu corpo - Leoni

25/03/2012

Ela só queria falar

Nos últimos dias, Peterson e Alexandra pareciam viver uma fase em que qualquer conversa terminava em discussão.

Depois de oito anos juntos, pequenas diferenças começaram a ocupar espaços maiores: os horários de trabalho, os encontros com os amigos, a vontade de construir uma casa, os planos para o futuro.

Ele sentia que ela cobrava uma presença que nem sempre conseguia oferecer.

Ela sentia que ele oferecia ao mundo um tempo que já não sobrava para ela.

Chegaram ao restaurante onde haviam combinado de se encontrar naquela noite. Sentaram-se sem o habitual carinho, sem perguntas sobre o dia, sem aquele olhar que antes dizia tudo.

Jantaram em silêncio.

Antes de sair, quase ao mesmo tempo disseram:

— Precisamos conversar.

Alexandra respirou fundo.

— Acho que não consigo mais continuar assim. Não adianta conversarmos, porque sempre voltamos aos mesmos lugares. Eu sinto falta de você, da sua presença, da sensação de que ainda fazemos parte da mesma vida.

Peterson abriu a boca para responder:

— Eu só queria que você...

Ela o interrompeu.

— Não precisa dizer nada.

E foi embora.

Mas ele precisava dizer.


Ele não voltou para casa. Procurou os amigos de sempre, tentou distrair a cabeça, mas nenhuma conversa conseguia afastar Alexandra dos seus pensamentos.

Não queria terminar.

Não queria perder oito anos.

Tentou ligar, mas ela não atendeu.

Enquanto isso, Alexandra caminhava até a casa dele.

Ela também não queria terminar.

Só queria que ele percebesse.


Quando Peterson finalmente chegou em casa, estava cansado, triste e arrependido.

Queria abraçá-la.

Queria dizer que tentaria.

Que algumas mudanças eram necessárias.

Entrou distraído e não percebeu a garrafa de champagne e as duas taças sobre a mesa.

Ao sair do banho, encontrou Alexandra em seu quarto.

Ela vestia apenas um robe branco e sorria.

Por um instante, ele esqueceu todas as palavras que havia preparado.

Apenas a abraçou.

— Eu sinto muito.

Ela passou a mão em seu rosto.

— Você sabe que não precisa ser perfeito, não é? Eu não quero mudar quem você é. Eu só queria sentir que ainda tenho um lugar na sua vida.

Ele sorriu, aliviado.

— Você me assustou.

Ela riu.

— Às vezes precisamos lembrar o quanto queremos alguém antes de perceber o quanto temos medo de perder.

Ele concordou.

— Nós ainda vamos brigar. Vamos discordar. Vamos nos irritar por coisas pequenas. Mas talvez o amor não esteja em nunca ter problemas. Talvez esteja na vontade de continuar escolhendo um ao outro.

Ela o beijou.

E pensou:

"Funcionou. Agora só falta convencê-lo do cachorro."

31/03/2011

O maior risco

Arison vivia à procura do risco. Era apaixonado por esportes radicais, desses que fazem a adrenalina substituir qualquer bom senso. Saltava de paraquedas, fazia bungee jumping, escalava montanhas, mergulhava em corredeiras e pilotava motos como se desafiasse a própria sorte.

E sorte, ao que tudo indicava, era o que nunca lhe faltava.

Participou de rachas, bateu carros contra muros, postes e árvores. Quebrou pernas, braços e costelas. Certa vez, a corda do bungee jumping se rompeu e ele caiu no mar. Em outra ocasião, quase se afogou durante uma sessão de surfe. Num passeio de asa-delta, enfrentou uma tempestade inesperada. Numa trilha de moto, escapou por pouco de quebrar o pescoço.

Sempre voltava.

Mais machucado do que prudente, mas voltava.

A dor nunca o assustou. A possibilidade da morte parecia apenas mais um ingrediente da aventura. Enquanto muitos colecionavam lembranças, Arison colecionava cicatrizes.

Até que, numa noite qualquer, chegou em casa e encontrou a namorada esperando por ele.

— Precisamos conversar.

Ela disse que o amor havia acabado. Que não fazia mais sentido continuar. Que era melhor cada um seguir o próprio caminho.

Pela primeira vez, Arison sentiu que não havia equipamento de segurança capaz de amortecer uma queda.

Naquela noite, morreu.

Não de paraquedas.

Não de moto.

Não escalando uma montanha.

Morreu de infarto, deitado na própria cama.

Depois de sobreviver a todos os riscos que escolheu correr, foi vencido justamente pelo único para o qual jamais havia se preparado: o de partir o coração.

13/03/2011

Touché

De dia


Ela:
Amor, faz tempo que não saímos. Vamos naquele bar de que a gente gostava?
Ele: Você viu minha cueca azul-marinho?
Ela: Ou naquele restaurante que serve aquele vinho maravilhoso...
Ele: Onde está meu sapato preto?
Ela: Também podemos ir ao cinema. Ou ao teatro.
Ele: Você acha melhor a gravata listrada ou a lilás?
Ela: Quem sabe viajamos no fim de semana?
Ele: Beijo, amor. Hoje vou chegar tarde.

À noite

Ele: Oi, querida. O que temos para o jantar?
Ela: Amor, vestido preto ou vermelho?
Ele: Ué... você vai sair?
Ela: Pega minha sandália prata, por favor.
Ele: Mas vai sair com quem?
Ela: Me empresta a chave do seu carro? O meu está na oficina.
Ele: Meu carro? Você enlouqueceu?
Ela: Beijo, amor. Vou encontrar alguns amigos.
A comida está na geladeira, é só esquentar.
Ah... lava a louça que usar e não esquece de dar comida ao cachorro.
Não precisa me esperar acordado. Amanhã você acorda cedo.
Até mais tarde.

Touché.

04/01/2011

Chuva, desejo e um café

Eles se conheceram em uma das ruas do centro de São Paulo.

Chovia forte naquele fim de tarde, e a blusa branca dela, [que revelava suas cordilheiras], insistia em desafiar a discrição que ela tentava manter escondendo-se atrás da bolsa.

Debaixo do toldo de um sex shop, ele observava a cena com um interesse que ia muito além da chuva. Aquele sempre fora seu pequeno fetiche desejo: blusas brancas em dias de chuva... sem guarda-chuva encontrar alguém como ela.

O vento aumentava. O toldo balançava. A cidade parecia conspirar a favor da coincidência.

— Vamos entrar até a chuva passar... delícia.

Ela riu.

Entraram.

Enquanto caminhavam entre prateleiras repletas de brinquedos e fantasias, apresentaram-se como se estivessem em qualquer livraria da cidade.

Ele seguia alguns passos atrás, admirando [suas pernas]  seu caminhar elegante, [as curvas desenhadas pelo tecido molhado], o bom gosto da roupa e o perfume suave que despertava uma vontade enorme de [levá-la para a cama] convidá-la para sair.

Ela, por sua vez, observava aquele homem [gostoso], agradável, [encorpado], bonito e, suficientemente, interessante para aceitar um convite de [ir para a cama] tomar um café.

Alguns minutos de silêncio — ou talvez de [fantasias] reflexões — bastaram para que ambos concluíssem que ainda era cedo para [se despirem] se conhecerem melhor.

Trocaram os telefones.

A chuva passou.

O resto...

...bem, isso já pertence à imaginação de quem lê.

18/07/2010

Sete anos depois


Eles viveram sete anos juntos.

Foram sete anos de descobertas, desencontros, paixão, ciúmes, ousadia, reconciliações e despedidas.

Amavam-se, mas permitiam que as vozes de fora falassem mais alto do que a deles. Terminavam quando o orgulho vencia. Voltavam quando a saudade se tornava insuportável.

Ela tinha apenas quatorze anos quando o conheceu.

Como toda primeira paixão, acreditou que o amor bastava para sustentar uma vida inteira.

Ele era aventureiro, impulsivo, conquistador. Carregava certezas demais para a pouca idade que tinha. Ela, por outro lado, conseguia desmontar sua dureza apenas com a presença.

Todos os dias o conquistava de novo.

Até que um dia foi embora.

Não porque deixou de amá-lo, mas porque já não suportava a pessoa que ele havia se tornado.

Os anos passaram.

Ela estudou, descobriu a filosofia, a literatura, a poesia. Conheceu outros lugares, outras pessoas, outros afetos. Aprendeu que crescer também é desaprender algumas certezas.

As lembranças dele permaneceram, mas já não ocupavam o centro da estante. Tornaram-se um livro importante, daqueles que a gente não relê com frequência, mas jamais tem coragem de doar.

Ele também seguiu.

Viveu intensamente, acumulou experiências, construiu uma família e encontrou, aos poucos, um homem mais sereno do que o rapaz que um dia fora.

Aprendeu que respeito e companheirismo não diminuem ninguém.

Ao contrário.

Se pudesse voltar no tempo, faria muitas coisas de outro jeito.

Mas o tempo nunca aceita revisões.

Passaram-se mais sete anos.

E, numa daquelas ironias discretas que a vida gosta de preparar, cruzaram-se por acaso em uma rua qualquer da cidade.

Ele parou.

Ela o reconheceu.

Continuou andando.

Então ouviu seus passos atrás de si.

Quando se virou, não havia cobranças, explicações ou promessas.

Havia apenas um abraço.

Naquele instante compreenderam que a distância não existira para separá-los.

Existira para transformá-los.


Algumas pessoas entram em nossa vida para ficar.
Outras entram para partir.
E existem aquelas raras que precisam ir embora antes de descobrir a forma certa de permanecer.
O destino talvez não seja um caminho traçado, mas uma sucessão de escolhas, encontros e despedidas.
Há coisas que só compreendemos quando permitimos que a vida nos conduza por lugares onde jamais imaginávamos chegar.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido do tempo.
Não nos devolver exatamente o que era nosso.
Mas nos devolver quem nos tornamos depois de viver tudo o que precisávamos viver.

14/07/2010

As cinzas


Ele mal via a hora de voltar para casa.

Havia dias em que recusava convites, inventava desculpas e atravessava a cidade com pressa. Queria apenas estar com ela.

Gostava de observá-la em silêncio.

Admirava o vestido branco de que ela tanto gostava, o jeito delicado de caminhar, a serenidade do seu sorriso. Bastava olhar para ela para acreditar que o tempo era incapaz de apagar a beleza de algumas pessoas.

Todas as semanas levava flores.

Dizia, como se ainda pudesse ser ouvido, que a amava. Prometia fidelidade eterna e repetia que nenhuma outra mulher ocuparia o lugar que ela havia conquistado em sua vida.

Era um ritual.

Talvez uma forma de permanecer perto.

Naquela tarde, porém, encontrou o prédio cercado por fumaça.

O apartamento estava em chamas.

Sem pensar no perigo, tentou entrar.

Nada lhe importava além das poucas lembranças que ainda guardava dela e que, naquele instante, desapareciam consumidas pelo fogo.

Quando finalmente conseguiu chegar ao quarto, encontrou apenas a cama envolvida pelas últimas labaredas.

Por um instante, desejou deitar-se ali.

Fechou os olhos, imaginando que talvez pudesse reencontrá-la.

Foi então que ouviu sua voz.

Suave.

Serena.

Como se viesse de muito longe.

— Ainda não.

Ele recuou.

Saiu do apartamento cambaleando, sem entender se a voz havia sido lembrança, sonho ou despedida.

Morreu de infarto poucos metros depois, diante do edifício onde, anos antes, ela também perdera a vida.

Talvez o amor nunca tenha deixado aquele lugar.

Ou talvez algumas despedidas simplesmente levem mais tempo para acontecer.


12/06/2010

Departamento de Recursos Humanos Amorosos



Os sites de relacionamento e as salas de bate-papo têm lá seu valor. Afinal, para quem não encontra o amor sentado na mesa ao lado, a internet parecia uma janela para novas possibilidades.

O problema é quando algumas pessoas entram nessa janela procurando uma conta bancária com sentimentos.

Entre uma sala de bate-papo e outra...

LineGirls: Olá! Nome, idade e estado civil?

Jefersong: Olá! Jéferson, 32 anos, solteiro. E você?

LineGirls: Aline, 28 anos, analista de sistemas. O que você faz da vida?

Jefersong: Sou vendedor de bijuterias em uma loja no shopping.

LineGirls desconectou.

Talvez ela estivesse procurando um amor. Talvez estivesse procurando um investimento.

Nunca saberemos.


Em outro canto da internet...

Empresário.rico para Gostosa:

Olá, meu nome é Otávio. Tenho 42 anos, sou casado, tenho dois filhos e sou empresário. Procuro uma mulher linda e gostosa como você para um relacionamento casual.

Em troca, posso mudar sua vida com meus mimos e ofertas diárias.

Pago bem, mas aviso logo: sou casado e procuro apenas sexo.

Beijos de prazer.


Retorno: Gostosa para Empresário.rico

Olá, Otávio.

Nunca me relacionei dessa maneira. Procuro realmente um amor. Sou carinhosa, atenciosa e sonho com um relacionamento sério com um homem solteiro que queira construir uma vida comigo.

Mas acredito que podemos conversar.

Afinal, se você está procurando alguém, talvez seja porque também sente falta de companhia.

Quem sabe você não encontra em mim aquilo que procura?

(risos)

Agora me explique melhor esse negócio de "mimos e ofertas diárias".

Beijos,

Isabel.


Quando não era o milionário procurando companhia, era o Romeu pedindo carona:

Ricardo: Amor, passaremos o dia juntos. Estou morrendo de saudades. Você escolhe o lugar. À noite podemos ir ao cinema, naquele restaurante que você gosta ou naquele barzinho onde nos conhecemos.

Débora: Que delícia! Também estou com saudades. Vamos ao cinema e depois ao restaurante italiano.

Ricardo: Claro, amor. Só tem um detalhe... você recebeu? Estou meio apertado hoje. Será que consegue me emprestar um dinheiro para colocar gasolina na moto?

Débora: Que???


Não generalizo. Existe amor, parceria, respeito e construção de uma vida juntos.

Mas, em muitos casos, parece que o namoro virou uma espécie de processo seletivo.

Antes de conhecer alguém, precisamos apresentar nosso currículo: profissão, salário, aparência, estilo de vida, planos futuros...

Se encaixar no perfil, seguimos para a próxima etapa.

Caso contrário, talvez seja necessário fazer uma atualização no "currículo afetivo".


Chega o Dia dos Namorados e o comércio agradece. Afinal, o amor também ganhou sua data oficial de cobrança.

Presentes, jantares, flores, declarações prontas...

Mas o amor não deveria caber em apenas um dia do calendário.

Relacionamento é cuidado diário.

É respeito quando ninguém está olhando.

É dividir sonhos, problemas, medos e conquistas.

E para aqueles que ainda não encontraram alguém para passar essa data, não desistam.

Existem pessoas boas procurando pessoas boas.

Às vezes, o problema não é a falta de amor.

É que estamos tão ocupados procurando o perfil perfeito que esquecemos de enxergar a pessoa real.

Quem sabe o próximo encontro não acontece em uma sala de bate-papo...

Ou simplesmente em uma conversa onde ninguém precise apresentar currículo.


12/05/2010

O desmonte da história

Depois de quarenta anos, minha avó resolveu reformar a casa. Queria modernizá-la: novas cores, novos azulejos, novos pisos. Ela não estava em ruínas. Pelo contrário, ainda era bonita, arejada e acolhedora. Mas, como acontece com tantas casas, chegou o tempo da mudança.

Como estou lá todos os dias, acompanho o pedreiro em cada canto. Observo enquanto ele quebra paredes, corrige imperfeições, muda ângulos, amplia espaços e transforma a aparência de cada cômodo.

Enquanto ele trabalhava, imaginei meu avô construindo aquela casa. Eu ainda nem existia quando ela foi erguida, mas, a cada parede derrubada, era como se eu enxergasse o suor dele misturado à argamassa.

Quando o pedreiro retirou a primeira camada do piso, revelou um antigo revestimento de barro, escondido havia tantos anos. Meu avô já o havia substituído uma vez. Mesmo assim, aquele chão permanecia ali, silencioso, guardando uma parte da história.

Ao ver os antigos cacos avermelhados, meus olhos se encheram de lágrimas. Não resisti. Tirei os sapatos e caminhei descalça sobre eles.

Foi uma sensação difícil de explicar.

Por alguns instantes, senti como se meu avô ainda estivesse ali. Como se o tempo tivesse voltado e eu fosse apenas uma menina correndo pelo quintal, brincando entre as sombras da varanda e colhendo as uvas da velha parreira que cobre parte do terreno.

Doeu vê-la servir de abrigo para os entulhos da reforma, soterrada por pedaços de pisos e revestimentos quebrados.

A reforma não apaga a saudade do meu avô, nem as lembranças que vivem naquela casa. Mas confesso que, a cada tijolo retirado e a cada piso arrancado, senti como se uma pequena parte de mim também fosse removida.

Já não é a mesma casa onde, quando morava nos fundos, eu corria todas as manhãs para encontrar minha avó.

Meu avô partiu há vinte e três anos. Eu tinha apenas dois e não pude conhecê-lo de verdade. Ainda assim, cresci ouvindo o quanto ele me amava. Talvez seja essa a razão da ligação tão profunda que sinto por aquela casa, construída por suas próprias mãos.

O que me consola é saber que a velha parreira continua de pé.

Todo fim de janeiro, quando eu colher seus cachos de uva, sei que levarei comigo um pedaço da memória do meu avô.

E, um dia — que Deus permita estar muito distante —, também da minha avó.

“Momentos meus”

05/05/2010

Mulheres que amam de menos - Não anônimas!

Cris: Eu, Cristina, estou namorando há dois meses um homem lindo. Roberto. Moreno, alto, forte... daqueles que chamam atenção quando entram em qualquer lugar. Ele me leva aos restaurantes mais sofisticados, me presenteia com o bom, o melhor e o ótimo. Confesso: muita gente morre de inveja. (risos)

O problema é que ele não tem conteúdo. Aliás, tenho um talento quase sobrenatural para encontrar homens lindos e culturalmente desertos. Tudo bem, são eles que pagam a conta, mas sou eu quem escolhe os lugares. Se dependesse deles, nossos encontros seriam em parques de diversão.

Nós: Hum... Mas já vimos muitos homens interessantes atrás de você. O Márcio, por exemplo.

Cris: O Márcio? Aquele cabeça de ovo? Deus me livre! (risos)

Nós: (risos) Então continue colecionando homens bonitos como quem coleciona bolsas. Alguns acumulam livros, você acumula acessórios humanos.


Chele: Eu, Michele, namoro o William há um ano e meio. Desde o primeiro encontro ele aparece com flores, bombons... é absurdamente romântico. Carinhoso o tempo todo. Às vezes chega a cansar.

Parece que eu atraio esse tipo de homem. Aqueles que tratam a gente como uma porcelana rara. Cinema? Só filmes delicados. Mensagens? Uma a cada cinco minutos perguntando se estou bem.

Eu queria alguém mais ousado. Um homem que não achasse que eu preciso de supervisão vinte e quatro horas por dia.

Nós: Hum... Mas, Chele, você parece uma bonequinha. Fala baixinho, tem esse jeitinho delicado... Por que nunca deu uma chance ao Rogério?

Chele: O quê? Aquele ogro? Só sabe falar de futebol, cerveja e churrasco. Se existisse uma escola de boas maneiras, ele teria repetido de ano.

Nós: Então, caçulinha da turma, pare de reclamar do William... e sossega o facho. (risos)

Elas: E você, Cila? Quem é a vítima da vez?


Eu: (risos) E quem disse que existem vítimas?

Estou numa fase contemplativa. Apenas observando territórios, conhecendo novos conceitos, visitando outros recintos.

Understand me?

Elas: Ahhh...

Vamos jogar bilhar!

02/05/2010

Um sonho, talvez.


Acordei de madrugada com um clarão na janela.

Tentei abrir os olhos, mas não consegui.
Quis gritar — minha voz não saiu.

O vento entrou forte, seguido de um som baixo, contínuo, como algo pairando do lado de fora.
Ouvi a janela abrir.

Passos.

Meu corpo não respondia.

Até que alguém se aproximou e sussurrou:

— Não tenha medo.

E tudo apagou.

Quando acordei, estava deitada em uma cama.

O quarto era claro demais. Branco demais.

Sem portas.

Demorei alguns segundos para entender que não estava sonhando.

Levantei.

Havia um espelho. Grande. Limpo.

Quando me vi, hesitei.

Um vestido longo, branco, de tecido leve.

Na cabeça, um arco dourado, delicado — quase uma coroa.

Não reconheci nada. Nem o lugar. Nem a mim.

Procurei por algo que fizesse sentido.

Qualquer coisa.

Foi quando encontrei uma pequena caixa branca no canto do quarto.

Dentro, um anel.

Dourado. Trabalhado. Familiar de um jeito estranho.

Coloquei no dedo.

E senti.

Não foi só emoção.

Foi como se algo me atravessasse — uma mistura de paz e urgência, de reconhecimento sem memória.

Fechei os olhos.

E então alguém me abraçou.

Um abraço firme, envolvente, como se já me conhecesse.

— Me ame — sussurrou.

Ele me virou.

Me beijou.

E eu correspondi.

Sem questionar. Sem entender.

Quando abri os olhos, ele estava ali — vestido de branco, como eu.

Não consegui ver seu rosto.

Na mão, uma única rosa vermelha.

A única cor naquele lugar inteiro.

Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele falou:

— Hoje é fim e recomeço. Não pense no ontem. Não se preocupe com o amanhã.

O sono veio de novo.

Pesado.

Deitei em seus braços e apaguei.

Acordei no meu quarto.

Escuro. Silencioso. Normal.

Fui até o espelho.

Era eu.

Mas alguma coisa… não era.

Senti uma tristeza estranha.

Sem motivo claro.

Uma lágrima escorreu.

Voltei para a cama.

No dia seguinte, acordei com a sensação de que algo estava prestes a acontecer.

Não lembrava do sonho.

Mas ele ainda estava em mim.

Saí.

Na rua, uma banca de flores.

E ali — um homem de camisa branca, comprando uma rosa vermelha.

Parei.

Algo dentro de mim reconheceu antes de eu pensar.

Me aproximei.

Olhei nos olhos dele.

E beijei.

Sem pedir licença. Sem saber por quê.

O beijo veio com a mesma sensação — intensa, familiar, inexplicável.

Afastei devagar.

— Você sentiu? — perguntei.

Ele me olhou, confuso.

— Senti… gosto de alguém que bebeu a noite inteira.

O mundo voltou.

Lembrei da discussão.

Da noite anterior.

Do meu namorado.

Pedi desculpas e saí.

Ainda atordoada.

Quando virei a esquina, ele estava lá.

Parado.

Com rosas vermelhas na mão.

Sorriu ao me ver.

Se aproximou e me entregou uma pequena caixa branca.

— Desculpa por ser tão imperfeito… mas eu te amo.

Meu coração disparou.

E, por um instante,

eu não soube dizer se aquilo era um recomeço…

ou só outra versão do mesmo sonho.


21/04/2010

Lembranças de Jhonny


Vivemos juntos por anos.
Tempo suficiente para que ele deixasse de ser só um ursinho e se tornasse parte de mim.

Era sempre o mesmo lugar:
seu colo improvisado, meu cansaço acumulado, e a noite acontecendo devagar.

Ele não dizia nada.
Mas nunca foi silêncio.

Esteve comigo nas madrugadas em claro, nos dias longos, nos choros que ninguém via.
Sempre ali — sem pedir, sem questionar, sem ir embora.

E eu, tantas vezes, distraída…
como se aquilo fosse permanente.

Conhecia cada detalhe dele.
O toque gasto, o tecido já cansado, o jeito exato de encaixar no travesseiro.

Era hábito.
Era conforto.
Era presença.

Era complemento do meu travesseiro

E, de algum jeito, era cuidado também.

Até que, um dia, não foi mais.

Acordei e ele estava ali —
mas não como antes.

O corpo de um lado, a cabeça do outro.
Como se, de repente, tudo o que era inteiro tivesse cedido.

E não havia o que fazer.

Foi só um ursinho.
Eu sei.

Mas não foi só isso.

Porque naquela noite, pela primeira vez em muito tempo,
o travesseiro ficou pequeno demais.

E o sono… não veio.

15/03/2010

Três mulheres, um vazio e a brilhante ideia de piorar tudo.


Márcia:
Acordei hoje com uma sensação estranha.

Jhenny:
Ressaca emocional ou tédio existencial?

Telma:
Ou só segunda-feira mesmo.

Márcia:
Nada disso. Estava tudo… perfeito demais. Casa limpa, silêncio absoluto, ninguém me pedindo nada. Um vazio suspeito.

Jhenny:
Clássico. Você está precisando de um namorado.

Telma:
Ou de um problema. Dá no mesmo, mas o problema pelo menos não ocupa espaço no armário.

Márcia:
Talvez eu queira alguém funcional. Que cozinhe, resolva burocracia, escolha um filme decente… um adulto operacional.

Jhenny:
Sim. Um homem bonito, educado, cheiroso… que saiba usar vírgula e desodorante.

Márcia:
E que pague contas sem entrar em crise existencial.

Telma:
Vocês não querem um namorado. Querem terceirizar a vida.

Jhenny:
Com benefícios adicionais.

Telma:
Claro. Pacote premium: resolve tudo e ainda beija bem.

Márcia:
Mas aí vem o bug.

Jhenny:
Sempre vem.

Márcia:
Depois de um tempo, ele começa a atualizar o sistema: quer saber onde você está, com quem, por quê, desde quando…

Jhenny:
Ativa o modo “auditoria”. Pergunta, analisa, opina.

Telma:
E, do nada, você está sendo gerenciada por alguém que você nem contratou.

Márcia:
Exato. E ainda tem a parte em que ele acha que pode dar pitaco na sua roupa.

Jhenny:
Ou na sua vida.

Telma:
Ou existir em excesso.

(Pausa breve)

Márcia:
Pensando melhor…

Jhenny:
Acho que prefiro o vazio.

Telma:
Ele pelo menos não fala.

As três se encaram por um segundo, fazem as contas mentalmente e chegam à mesma conclusão:

Todas:
Não.

E riem — porque, às vezes, a lucidez também tem senso de humor.


14/01/2010

Linhas tortas

Vivian sempre estava atrasada. Saía de casa correndo para suas rotinas diárias: trabalho, academia, curso, dança, namoro…

Com uma vida administrada em um espaço de tempo apertado, muitas vezes acabava se atropelando nos próprios horários e se perdendo em pequenos contratempos.

Dia desses, ao sair do trabalho, encontrou o carro sendo guinchado por estar estacionado em local proibido. Sem alternativa, seguiu a pé até a academia.

No caminho, encontrou uma carteira sem documentos — apenas dinheiro. R$ 859,00. Algo que, naquele momento, pareceu resolver parte do caos.

Após o treino, encontrou a amiga Carol, que lhe ofereceu uma carona até o curso. No trajeto, em um cruzamento, um acidente leve interrompeu o caminho. Nada grave, mas o suficiente para mais um atraso inevitável.

Uma sequência de pequenos imprevistos, como peças fora do lugar.

Sem alternativa, voltou para casa de ônibus.

No caminho, decidiu passar na casa do namorado, Felipe.

Ao chegar, encontrou-o com outra mulher — sua melhor amiga, Kátia.

Sem cena, sem palavras. Apenas silêncio.

Respirou fundo. Virou as costas. E seguiu.

No trajeto de volta, encontrou um antigo colega da escola.

— Oi… como vai? — ele disse.

Ela hesitou por um instante. O tempo parecia ter parado entre o reconhecimento e a surpresa.

A conversa começou simples, quase despretensiosa. Mas algo ali já não pertencia mais ao passado.

De uma amizade antiga, nasceu um reencontro que parecia deslocado no tempo — como se tivesse esperado anos para acontecer no momento errado da vida certa.

Meses depois, soube que Felipe havia morrido por overdose. Kátia se perdia entre excessos e ausências nos bares, pedindo por mais uma dose.

Nada parece exatamente acaso.

Mas também não parece destino.

A vida segue caminhos que não explicamos — apenas atravessamos.

Nada é por acaso  e sem essa de que "tudo está escrito" . A vida nos prega peças que, de início, não entendemos o porquê, mas sempre há trajetos inexplicáveis, que somos obrigados a seguir. A vida nos guia sem sabermos como, quando ou será. O melhor é confiar que sempre tem alguém mostrando o caminho.

30/08/2009

Limiar Noturno

Numa tarde escura, a lua já apontava seu brilho e as luzes da cidade se acendiam sem alarde. Um silêncio, um mistério, pairava sobre sereno frio e nostálgico que vinha do sul agoniando meus pensamentos.

Em meu quarto, a chuva parecia prestes a começar. Uma brisa fria atravessava a janela entreaberta, anunciando uma noite vazia. Eu permanecia sob o lençol aquecido com meu corpo.

Inquieta e sonolenta, deixei-me levar, pausando os momentos alucinantes, sobrepondo o real no imaginário, abrindo o portal de uma viagem mística — algo próximo do que chamam de viagem astral.

Apenas a luz da lua cheia iluminava o quarto escuro. O vento fazia sons leves entre as árvores do lado de fora, compondo uma melodia distante.

Quando ouço lá do fundo dos meus sonhos reais um barulho, um ruído.

Sem forças para me levantar, como se eu estivesse enfeitiçada, permaneci quieta, embriagada desta noite alucinante.

O som se aproximava.

Senti meu coração acelerar, minha pele arrepiar e o colchão afundar. Uma brisa fria me descobria, com início em meus pés, subindo como se fosse uma mão suave tocando meu corpo.

Eu, sonolenta, não sabia distinguir entre o medo e o desejo.

Parecia que meu temor o atraia e meu desejo o seduzia. Meu corpo quente entre aquele corpo frio me confundia. A única lucidez que, em mim, havia era de não querer que essa sensação terminasse.

Então senti seus lábios.

Um beijo silencioso, profundo, inexplicável e apaixonante. Logo após, em meu pescoço uma mordida suave e envolvente, o saciando à vontade de sugar o meu sangue que se escorria por minha veste vermelha de seda. 

Deixei matar sua sede, seus desejos, até o ultimo gole que o acalmava.

Ao abrir meus olhos, deparei-me com os dele: verdes e serenos. Olhei em seus lábios, vermelhos de meu sangue, passando a língua entre os dentes com um ar faceiro.

Sua pele, branca e fria, o realçava entre seus cabelos negros.

Já não tinha mais forças para perguntar qual o seu nome. Nem de onde vinha. Nem por que havia me encontrado.

Ele apenas se afastou em direção à janela.

E desapareceu.

Fiquei ali, suspensa entre o êxtase e a ausência, como se algo em mim tivesse sido despertado e deixado incompleto.

Amanheceu.

Eu acordei com meus dentes afiados e com um único desejo: que à noite venha a calhar e devolva esta sensação enigmática de emoção e prazer, pois minha sede é somente de seu corpo.

E desde então, deixo a janela aberta.

Todas as noites.

Como se ainda houvesse algo esperando o retorno daquilo que não sei nomear.