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22/08/2026

Você permanece em mim...

 

A poltrona ainda guarda o molde da ausência, como se o tecido se recusasse a esquecer quem partiu. Sua voz, que antes habitava o eco desta espera, já não encontra caminho no silêncio desta casa.

A distância agora é um abismo, extensão exata para desatar o nó que fomos. Aquele olhar — antes enigma e morada — já não me decifra, não me toca, não me tem.

Sumiu o laço, apagou-se o afeto. Não restou sequer o peso de um até logo.

Mas ainda nos resta a melodia que demos um ao outro, trilha eterna do que fomos e do que poderíamos ser. Ainda ecoam tuas palavras doces, lembrando que o tempo cura, que a dor lapida a alma e traz sabedoria. Que a vida já acontece no próprio caminhar, e que até o processo guarda sua dose de alegria — basta mirar o horizonte.

Hoje a distância nos separa, mas você permanece: é o sabor do vinho que pacifica a mente e acalma o peito; é o sussurro que me desperta ao amanhecer, chamando-me para honrar o destino traçado em minhas mãos, enquanto entrego o amanhã ao tempo.

A ausência habita a casa, mas tua presença me ocupa: sinto teus gestos, tuas mãos, a textura de nós dois. Você é o propósito que me faz transcender limites, meu sonho doce em plena luz do dia, o combustível sutil que me fortalece, molda meu corpo e desperta minha força. És meu pré-treino que me embebeda de desejo e me devolve o ânimo.

Aqui estou, recompondo-me dos atritos que o mundo impõe, em um grito mudo de saudade, na urgência do teu abraço. Anseio por tocar teu corpo com o traço das minhas mãos e reencontrar teus lábios nos meus.

É um caminho árduo, denso, doloroso, mas suplico ao tempo, em silêncio, que encontre uma forma de te trazer de volta para mim.

14/03/2012

Os lugares do amor ♥


Não amamos todas as pessoas da mesma maneira.

Mudam a intensidade, o tempo, a forma de demonstrar, a presença e até o silêncio. Há quem ame dividindo a vida. Há quem ame à distância. Há amores que permanecem apenas na lembrança e, ainda assim, continuam verdadeiros.

A vida nem sempre nos conduz pelos caminhos que imaginamos. Existem amores que duram uma existência inteira, outros que terminam cedo demais. Há os interrompidos, os impossíveis, os correspondidos e aqueles que só encontram morada dentro de quem os viveu.

O tempo costuma responder perguntas que o coração não consegue. Descobrimos que algumas paixões eram passageiras; outras, porém, apenas mudaram de lugar dentro de nós.

Nem todo amor foi feito para permanecer ao nosso lado.

Às vezes é preciso partir justamente porque o sentimento se tornou maior do que nossa capacidade de vivê-lo com equilíbrio. Amar também exige preservar a si mesmo.

Quem ama erra. Quem ama também perdoa — ou aprende que nem todo erro pode ser reparado. Há perdas que não dependem da nossa vontade: acidentes, despedidas, doenças, distâncias. Nessas horas, o amor não desaparece. Ele muda de forma.

Talvez seja esse o maior equívoco que cometemos: acreditar que um novo amor apaga o anterior.

Não apaga.

Cada pessoa ocupa um lugar que ninguém mais ocupa.

Uns permanecem na rotina. Outros vivem apenas na memória. Alguns continuam nos ensinando mesmo depois de partirem.

O coração não é uma sala onde um sentimento precisa sair para que outro entre.

Ele é uma casa que aprende a criar novos cômodos.

Hoje não penso mais no amor como uma disputa entre quem veio antes e quem chegou depois.

Penso nele como uma coleção de encontros que ajudaram a construir quem sou.

Não deixei de amar.

Aprendi que alguns amores permanecem.

Cada um em seu lugar.

16/08/2011

O que é felicidade?



Passei muito tempo acreditando que seria fácil defini-la. Achei que bastava encontrá-la uma vez para compreender seu significado ou, quem sabe, aprender a conservá-la.

Descobri que não.

A felicidade muda de forma conforme mudamos nós.

Já a comparei à paixão, intensa e imprevisível. Ao amor, por parecer nascer dos afetos mais sinceros. À conquista, por surgir depois de longas esperas. Nenhuma dessas definições foi suficiente.

Há quem a encontre no sucesso. Outros, na tranquilidade. Alguns acreditam que ela mora nas grandes realizações; outros a reconhecem nos pequenos instantes. Talvez por isso seja tão difícil explicá-la.

Com o tempo percebi que felicidade não é ausência de dor. É presença de sentido.

Ela pode estar na compra de algo muito desejado, no reconhecimento por um trabalho bem feito, no abraço de quem amamos, numa conversa inesperada, numa música que nos devolve uma lembrança ou simplesmente no alívio de chegar em casa depois de um dia cansativo.

As crianças talvez se aproximem mais dela porque ainda descobrem o mundo com espanto. Os adultos, muitas vezes, deixam de percebê-la porque passam a procurá-la apenas nas grandes conquistas.

A verdade é que a felicidade raramente faz barulho.

Ela está no café compartilhado, na chuva, no descanso merecido, no livro que nos encontra na hora certa, na chuva vista da janela, numa gargalhada inesperada, na sensação de que, por alguns minutos, tudo está exatamente onde deveria estar.

Talvez ela nunca tenha morado no futuro, nem na vida do vizinho.

Talvez sempre tenha vivido nos detalhes que, distraídos, insistimos em chamar de comuns.

Na verdade...

Acho que eu sempre soube disso.

25/03/2011

Uma dose de liberdade


Imagem de Nesrin Öztürk - pixels

Ser escravo do outro é pesado. Ser escravo de si mesmo pode ser ainda mais.

Há prisões que não têm grades: o medo, a culpa, a necessidade de aprovação, as expectativas que acumulamos ao longo da vida. Muitas vezes, somos nós que fechamos a porta e esquecemos onde deixamos a chave.

Mas o que é, afinal, a liberdade?

Não penso naquela que nos permite apenas ir e vir. Essa é importante, mas insuficiente. A liberdade que realmente transforma é a interior: a de pensar sem medo, agir de acordo com a própria consciência e assumir as consequências das escolhas que fazemos.

Ser livre também exige responsabilidade. Toda escolha abre um caminho e fecha outros. Não existe liberdade sem renúncias, nem independência sem compromisso com aquilo que decidimos viver.

A ignorância e o medo costumam ser os maiores cárceres. Quando deixamos que o ruído das inseguranças fale mais alto que nossa consciência, acabamos entregando a outros o direito de decidir por nós.

E o amor talvez seja a maior prova disso.

Relacionar-se não deveria significar abrir mão da própria identidade. Amar não é reduzir o outro ao tamanho das nossas necessidades, nem diminuir a si mesmo para caber na vida de alguém. Duas pessoas não deixam de existir para formar uma só; continuam sendo inteiras, apenas escolhem caminhar na mesma direção.

Talvez seja essa a forma mais bonita de liberdade: aquela que nos permite permanecer quem somos, sem impedir que o outro faça o mesmo.

06/10/2010

Minutos – Diário de uma multifacetada l

Há dias em que nada extraordinário acontece.

Ainda assim, alguma coisa muda.

Às vezes é um filme que desperta uma emoção esquecida. Um sorriso discreto trocado com um desconhecido. Uma garrafa de vinho na prateleira capaz de devolver uma lembrança inteira. Pequenos acontecimentos que passam despercebidos para quase todo mundo, mas que, por algum motivo, transformam o dia.

Talvez a vida nunca tenha escondido seus maiores significados nas grandes conquistas. Talvez ela prefira os detalhes.

Gosto de observar essas pequenas permanências. Um quadro sendo pintado em uma praça. Uma música que reaparece depois de anos. Um cheiro que atravessa o tempo sem pedir licença. São coisas simples, mas carregam um poder curioso: lembram-nos de quem fomos e, às vezes, de quem ainda somos.

Sempre me perguntam o que torna uma pessoa diferente.

Nunca encontrei uma resposta.

Talvez seja a maneira como cada um sente o mundo.

Há quem atravesse os dias sem olhar para os lados. Outros enxergam poesia numa janela aberta, numa chuva inesperada ou numa conversa qualquer. Não sei se isso nos torna mais sensíveis ou apenas mais atentos.

Loucos? Quem não é? Ou somos poucos?

Sentir falta do que passou é comum.

Sentir saudade do que nunca aconteceu também.

Talvez seja dessa mistura de lembranças, imaginação e desejo que nasçam os poemas.

No fim, percebo que poderia viver muitas vidas e, ainda assim, continuaria tentando compreender esta.

Escrevo justamente por isso.

Para guardar os detalhes que, um dia, poderiam passar despercebidos.

Porque, às vezes, são eles que contam a nossa verdadeira história.

“Momentos meus”

08/08/2010

Silêncios herdados


Meu Pai me ensinou o valor do amanhã, das conseqüências dos frutos que plantamos hoje.

Que por mais que o mundo seja tentador, com suas festejas noturnas irresistíveis, com seus caminhos teóricos do melhor que há na vida, sempre há limite.

Ensinou-me a administrar meus gastos, meu cansaço, de uma maneira dura, porém coerente. Que para obter o desejado, primeiro dá-se o suor.

O privei de conhecer-me, de me dar um futuro e saber meu paradeiro. Mas nunca esqueço dos conselhos que, por mais que não seja transparente de onde que eu aprendi, hoje sou espelho de caráter e compostura.

Meu amor é silencioso, tenho dificuldade de demonstrar afeto direto, mas em minhas orações de proteção e prosperidade sempre cito seu nome. E se hoje sou o que sou, em relação a bom senso, devo isso ao meu pai que sempre se mostrou correto.

19/03/2010

Passos errados

Sentimentos que doem distorcem o que a gente sente de verdade.
Confundem, atravessam o dia, pesam no corpo.
Às vezes, vêm como lembrança — e o corpo responde antes mesmo da mente entender: dor, náusea, silêncio.

É uma dor que não grita.
Ela se espalha.
Como se algo dentro da gente se partisse em pedaços pequenos, enquanto os olhos tentam dar conta do que não cabe.

Quem sente entende.
É como uma lâmina atravessada — não mata, mas impede qualquer movimento.

Há uma amargura que não se explica.
Uma falta que não se aceita.
Uma perda que talvez nem seja definitiva — mas, naquele instante, é tudo.

E a gente fica.
Parado.
Sem recurso, sem resposta, tentando contornar o que já aconteceu.

Vem sem aviso.
Sem sinal de que poderia ter sido diferente.
Um passo em falso — e pronto: tudo muda de lugar.

E, ainda assim, se repete.

Acontece.
Aprendo.
Repito.

Até quando?

A gente gosta de acreditar que existe, nisso tudo, alguma ordem.
Que o universo organiza, compensa, devolve.

Mas o que mais pesa é isso:
esperar.

Esperar o tempo decidir se era fim ou começo.
Se foi erro… ou só outra forma de não acontecer.

E o tempo dirá — dizem.

Será?

O amanhã não nos pertence.
Mas é nele que a gente deposita o que não conseguiu resolver hoje.

A minha fé, por vezes, é a insistência silenciosa diante de uma porta sem trinco, sem chave — e talvez, nem minha.

Infinito é esse destino que me leva a renunciar o que quero.
Porque, no fim, minha escolha não é o que sinto...

E, ainda assim, eu sinto.

“Momentos meus”