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03/05/2012

Consternações e embriaguez.



Há dias em que tudo aquilo que aprendi parece se desfazer.
Tudo que conquistei se torna pequeno, quase sem importância.

Uma fase da qual não sei quando entrei, nem se algum dia consegui sair. Resta apenas uma vaga lembrança de quem eu era quando ainda resistia.

Nesses dias, minha vida parece se resumir a uma contagem de dedos: poucos momentos, pensamentos vagos, vazios e sem sentido.

Então me pergunto:

Onde foi que parei?

Será que me perdi pelo caminho ou apenas esqueci de mim?

Não sei como prosseguir quando tudo parece perder seu lugar no tempo. Até a saudade, antes acolhedora, transforma-se em peso.

Não adianta evitar.
Não adianta recuar.
Não adianta tentar começar novamente.

Sinto-me interrompida, presa aos desejos incompletos, aos sonhos que ficaram pelo caminho e aos braços que já não sabem onde repousar.

É estranho e doloroso lembrar de algo tão distante que insiste em permanecer no presente.

Não sei se faz anos ou dias.
Não sei se é permitido sentir aquilo que sinto.

Às vezes me entrego.
Às vezes resisto.
Às vezes parece impossível.
Às vezes parece imperdoável.

Por muitas vezes pensei em desistir e mergulhar profundamente nos meus próprios pensamentos.

Talvez eu já tenha feito isso.

Talvez tenha feito errado.
Talvez não tenha sido suficiente.
Talvez simplesmente não houvesse outro caminho.

Eu só sei que, se encontrar uma saída, vou me obrigar a continuar.

E, se não encontrar, inventarei uma.

Até conseguir me reconstruir enquanto ainda sou capaz de tentar.


Estamos ouvindo. A Montilla e eu.

04/01/2011

Chuva, desejo e um café

Eles se conheceram em uma das ruas do centro de São Paulo.

Chovia forte naquele fim de tarde, e a blusa branca dela, [que revelava suas cordilheiras], insistia em desafiar a discrição que ela tentava manter escondendo-se atrás da bolsa.

Debaixo do toldo de um sex shop, ele observava a cena com um interesse que ia muito além da chuva. Aquele sempre fora seu pequeno fetiche desejo: blusas brancas em dias de chuva... sem guarda-chuva encontrar alguém como ela.

O vento aumentava. O toldo balançava. A cidade parecia conspirar a favor da coincidência.

— Vamos entrar até a chuva passar... delícia.

Ela riu.

Entraram.

Enquanto caminhavam entre prateleiras repletas de brinquedos e fantasias, apresentaram-se como se estivessem em qualquer livraria da cidade.

Ele seguia alguns passos atrás, admirando [suas pernas]  seu caminhar elegante, [as curvas desenhadas pelo tecido molhado], o bom gosto da roupa e o perfume suave que despertava uma vontade enorme de [levá-la para a cama] convidá-la para sair.

Ela, por sua vez, observava aquele homem [gostoso], agradável, [encorpado], bonito e, suficientemente, interessante para aceitar um convite de [ir para a cama] tomar um café.

Alguns minutos de silêncio — ou talvez de [fantasias] reflexões — bastaram para que ambos concluíssem que ainda era cedo para [se despirem] se conhecerem melhor.

Trocaram os telefones.

A chuva passou.

O resto...

...bem, isso já pertence à imaginação de quem lê.

24/09/2010

Mulheres que amam de menos - Não anônimas [3]



Márcia: Eu, Márcia, tenho 29 anos e gosto da cor azul, sorvete de morango e chantilly no café. Todos sabem que odeeeio Portinari, azzarro.. e que droga de perfume é aquele Ferrai que o Jailton estava usando? Não é à toa que eu não volto com ele.

Nós: ...

Márcia: Esses dias o Paulo veio em casa, eu estava com meu vestido azul. Ele, como se fosse meu namorado, disse que meu vestido preferido não me caia bem.
Como pode? Que petulante!
O Flávio adorou aquele vestido quando nos encontramos pela primeira e única vez, pena que ele foi embora, não deu nem tempo de perguntar que perfume era aquele.

Nós: Márcia, é Ferrari! Não prestou atenção no frasco que estava no painel no carro dele?
Ah, entendemos, querida, você estava preocupada com outras coisas.. Compreensível. Ui...

Márcia: Hã???

Coro: Hahahahaha... Vai cuidar da sua rinite, amiga.

Vivi: Eu, Vivian, tenho 28 anos e gosto de Romeu e Julieta – não do filme, do doce – no meu café da manhã não pode faltar suco de laranja e nem pense em colocar café na mesa, me enoja, fico com náuseas só de lembrar daquele cheiro, argh!
Esses dias eu dormi na casa do Júlio, acordei com enjôo daquele cheiro de café. Acordei brigando também, ele sabe que eu não gosto de café, porque ele fez café? Alguém pode me explicar?

Coro: Sim.. ele gosta de café de manhã..

Vivi: Que tomasse quando eu não estivesse lá, ou melhor, que não fizesse quando eu dormisse lá..

Mesa: Não vamos passar a noite falando de café, vamos?
Vivi, você nem gosta dele, pare de iludir o cara, amiga, volta com o Luciano que faz todos seus gostos, aliás, ele tem seus gostos.

Vivi: (suspirou e sorriu).

Elas: Priiii, o que foi aquilo que vimos na casa do C*****, você pegou a bala dele, e o que é pior, a tal bala estava na boca dele antes de passar pra sua. Voltaram pela 324ª vez?

Eu: Oi?

Elas: Haha, o que ele tem de tão bom, Pri, te traz chocolate também?

Eu: Foi só uma recaída, meninas, sabem como é a madrugada com Jack Daniels – Não me pergunte como a garrafa veio parar em minhas mãos. Mas, pensando com a cabeça, o C****** sempre foi um amorzinho, pena que..

Elas: O quê? O quê? O quê?

Eu: Eu gosto de sentir borboletinhas na barriga e ouvir pássaros cantando..
Que eu gosto de perfume Polo Black, dormir, na maioria das noites principalmente as quentes, em camas separadas e da CHUVA. A diversidade sempre foi tentadora, mesmo que o “diferente” parte sempre de um mesmo amante. Mas aceito o suco de laranja da Vivi e o café com chantilly da Marcinha.

Elas: Haha... Igual o F*******?

Eu: Não, igual o E******. Rá! peguei vocês!

Elas: Quem é E******?

Eu: Oi?

Mesa: Ahhh... vamos pedir pizza!

29/06/2010

Mulheres que amam de menos - Não anônimas! [2]

Manu: Eu, Manuela, tenho trinta e dois anos. Não escondo minha idade; continuo gostosa. Nunca fui casada, não tenho filhos e meus relacionamentos costumam durar até eu descobrir que o sujeito se apaixonou mais pelo meu patrimônio do que por mim.

Tentei gostar do Fabiano. Tá... gostei um pouquinho.

Mas ele só queria sair com o meu carro.

Tenho quase certeza de que era para economizar a gasolina dele.

Nós: Mas o Michel não fazia justamente o contrário? Não ia sempre te buscar, te deixava em casa, te levava aos restaurantes mais caros e nunca deixava você dividir a conta?

Manu: Ah, não! Aquele queria ser meu motorista particular. Escolhia os lugares, abria a porta do carro, decidia tudo...

Parecia até que eu vinha de fábrica com manual de instruções.

Já me viram aceitar que dirijam a minha vida?

Nós: ...

Tá bom, deixa pra lá.

Paty?


Paty: Eu, Patrícia, me divorciei há três meses do Felipe.

Ele era maravilhoso.

Carinhoso, trabalhador, companheiro, fiel...

Lembrava das datas importantes, aparecia com flores, presentes, chocolates quando eu estava de TPM.

Gostávamos das mesmas coisas, viajávamos juntos, dançávamos, conversávamos por horas...

E o sexo...

Nós: Chega!

Se ele era esse homem todo, por que vocês se separaram?

Paty: Não sei.

Tenho só vinte e três anos.

Ainda quero conhecer muita coisa, viver outras experiências.

Percebi que não nasci para morar num mundo a dois.

Mas foi bom enquanto durou.

Pelo menos a venda dos bens pagou minha faculdade.

Nós: Estamos oficialmente bege.

Até outro dia você escolhia o nome dos futuros filhos.


Elas: E você, Cilóka?

Por que terminou com o Rodrigo?

A gente jurava que aquele grude terminaria em casamento.

O que aconteceu?

Eu: Me diz uma coisa...

Tenho cara de Banco 24 Horas?

Tenho cara de caixa eletrônico?

Tenho filho barbado para sustentar?

Tenho uma fábrica de dinheiro escondida no quarto?

Porque, sinceramente, nunca me vi adotando marmanjo.

Já me viram namorar alguém que vive pedindo dinheiro para gasolina, para consertar pneu, para isso, para aquilo...

E que ainda chega cheirando a fumaça?

Elas: Ah...

Eu: Não.

Não sou otária.

Pronto, falei.

Elas: E ele pagou o que estava devendo?

Eu: Não.

Mas o capacete continua comigo.

E mais algumas coisinhas também.

Acho que, quando vender tudo, finalmente recebo o dinheiro de volta.

(risos)

Elas: Nossa...

Tudo bem que vingança nunca é uma boa ideia...

...mas...

(silêncio coletivo)

Estamos do seu lado, amiga.

(risos)

Nós: Hahahaha...

Vamos assistir ao jogo.

05/05/2010

Mulheres que amam de menos - Não anônimas!

Cris: Eu, Cristina, estou namorando há dois meses um homem lindo. Roberto. Moreno, alto, forte... daqueles que chamam atenção quando entram em qualquer lugar. Ele me leva aos restaurantes mais sofisticados, me presenteia com o bom, o melhor e o ótimo. Confesso: muita gente morre de inveja. (risos)

O problema é que ele não tem conteúdo. Aliás, tenho um talento quase sobrenatural para encontrar homens lindos e culturalmente desertos. Tudo bem, são eles que pagam a conta, mas sou eu quem escolhe os lugares. Se dependesse deles, nossos encontros seriam em parques de diversão.

Nós: Hum... Mas já vimos muitos homens interessantes atrás de você. O Márcio, por exemplo.

Cris: O Márcio? Aquele cabeça de ovo? Deus me livre! (risos)

Nós: (risos) Então continue colecionando homens bonitos como quem coleciona bolsas. Alguns acumulam livros, você acumula acessórios humanos.


Chele: Eu, Michele, namoro o William há um ano e meio. Desde o primeiro encontro ele aparece com flores, bombons... é absurdamente romântico. Carinhoso o tempo todo. Às vezes chega a cansar.

Parece que eu atraio esse tipo de homem. Aqueles que tratam a gente como uma porcelana rara. Cinema? Só filmes delicados. Mensagens? Uma a cada cinco minutos perguntando se estou bem.

Eu queria alguém mais ousado. Um homem que não achasse que eu preciso de supervisão vinte e quatro horas por dia.

Nós: Hum... Mas, Chele, você parece uma bonequinha. Fala baixinho, tem esse jeitinho delicado... Por que nunca deu uma chance ao Rogério?

Chele: O quê? Aquele ogro? Só sabe falar de futebol, cerveja e churrasco. Se existisse uma escola de boas maneiras, ele teria repetido de ano.

Nós: Então, caçulinha da turma, pare de reclamar do William... e sossega o facho. (risos)

Elas: E você, Cila? Quem é a vítima da vez?


Eu: (risos) E quem disse que existem vítimas?

Estou numa fase contemplativa. Apenas observando territórios, conhecendo novos conceitos, visitando outros recintos.

Understand me?

Elas: Ahhh...

Vamos jogar bilhar!