20/07/2026

Enquanto eu falava...

 Gostava tanto de quando ele me chamava pelo nome. Dizia-o com uma voz aveludada, baixa, pausada, dando a cada sílaba o peso do carinho e de um desejo apenas insinuado.

Entrávamos. Aos poucos, nos aproximávamos.

— Conte para mim... o que pesa aí dentro? — dizia ele, num sussurro grave que sempre me trazia segurança.

Ah... o jeito dele.

Sentava-se com aquela presença inquestionável, no clássico estilo de homem: pernas abertas, ocupando o espaço com uma segurança serena que me desarmava. As mãos permaneciam entrelaçadas, como as de quem se acomoda para ficar. Mantinha a cabeça levemente baixa, mas os olhos... os olhos erguiam para mim por longos instantes. Fixos. Profundos. Quase sem piscar. Era o olhar de quem enxergava a alma sem pedir licença, sem fazer esforço algum.

O relógio na parede parecia desacelerar apenas para nos conceder mais alguns minutos. A conversa se estendia. Eu falava, desabafava, deixava as palavras escorrerem como um rio raso, carregando a tristeza pesada que me apertava o peito.

As lágrimas represadas ameaçavam cair, e a saudade de algo que nem eu sabia nomear me sufocava.

Mas ele permanecia ali.

Esperava.

Nunca me interrompia. Eu podia falar por minutos, talvez horas; ele ouvia cada palavra e só respondia quando percebia que minha voz começava a embargar. Eu admirava profundamente aquele gesto. Achava-o incrivelmente atraente, de uma delicadeza rara. Em nenhum instante parecia entediado. Ao contrário: tinha a expressão de quem devorava minhas palavras e, ainda assim, parecia desejar ouvir mais.

— Eu não sei o que fazer com tudo isso... — murmurei, com a voz trêmula e os olhos marejados, onde o verde se perdia entre diferentes tons de vermelho.

Num movimento lento e preciso, ele se ajeitou à minha frente. Respondendo com uma delicadeza que contrastava com a firmeza de quem precisava dizer algo importante, sempre medindo as palavras para não me ferir.

Falava como quem me traduzia para mim mesma.

As palavras em seus lábios eram um lenitivo para o meu desespero. Aos poucos, eu me acalmava, como se ele me despisse das angústias e oferecesse sentido às minhas manias.

Mas chegou a hora de partir.

Suas palavras de despedida me desordenavam, como se as paredes se desfizessem ao meu redor, tingindo a sala de penumbra e silêncio.

Deixei que fosse embora sem dizer o quanto eu sentia. Apenas um "obrigada", sufocado entre a garganta apertada e lágrimas silenciosas.

Então veio o abraço.

O tempo congelou no exato instante em que nos tocamos. Encurralada entre o consolo e a tentação daquele abraço apertado, senti o calor do acolhimento transformar-se em saudade... e a saudade, lentamente, em paixão.

Desde então, penso. Quero. Anseio. Desejo. Ardo. Clamo... e espero, um dia, voltar a ficar leve.

11/07/2026

Enquanto você me ouvia...

Em mim, da mente as dores, a angústia entendia,
Mas tu, que as minhas loucuras com calma sopesavas,
No caos de minha mente a ordem semeavas,
No desespero escuro em que minha voz se perdia.
 
Dos meus excessos, nenhum juízo fizeste,
Me acolheu por inteira, costurada pelo tempo,
Passado, presente e futuro em um só movimento,
O meu olhar cansado e perdido aceitaste.
 
Em teu silêncio sereno, meus medos ganhavam calma,
És meu misto sagrado de prazer, anseio e de agonia,
Teu sorriso cúmplice se tornou minha doce heresia,
De tecer-me o passado e o porvir da minha inquieta alma.
 
Contudo, a hora amarga o destino decretou,
Tu me olhaste nos olhos, disse que precisava ir,
E o mundo, por um segundo, pareceu sumir,
E o eco do teu passo a urgência me roubou.
 
"Ir-me convém", disseste, e o mundo emudeceu,
Veio o abraço apertado, o nó que não desata,
Aquele que acolhe, mas que também maltrata,
No instante em que o teu corpo ao meu se submeteu.
 
E foi ali, no silêncio daquela despedida ingrata,
Daquele abraço estreito nasceram fogo e cruz,
A paixão que me assoma, a saudade que reluz.
Despedida ingrata que o desejo me desgarra!
 
Abalou-me o peito essa paixão tardia,
Partiste, sim, deixando a marca que esmaga,
E uma ausência infinita, que ninguém mais afaga,
Que hoje em solidão se verte em poesia.

26/02/2014

Encaixes














 Sem demora, principiamos nossa história.
Compartilhamos espaços, afáveis momentos. 
Trocamos saudades por horas de prosa, 
Provamos do doce, do salgado e do azedo.

Se entristeço, me aconchego em seus braços.
Se percebo teu cansaço, me faço de leito.
Antes de amanhecer, alternamos abraços;
Antes da despedida, nos adornamos de beijos.

De fantasias, rascunho durante o dia meus pensamentos,
As vontades de estar junto a todo instante,
De abraçar, com nosso jeito, a todo momento.

Desarmonias não duram um dia.
Angústias não duram uma noite.
Ainda assim, mantemos companhia.


14/01/2013

Cartas Guardadas lll

Cartas que foram escritas há muito
  tempo, no intuito de serem entregues
  e receber respostas. 
As próximas cartas revelarão
 segredos e sentimentos
 que não chegaram ao seu destino.



Breno, 
Não sei verbalizar sentimentos. Olhos nos olhos me deixa acanhada, limitando as palavras que deveriam ser ditas.
Então escrevo...

Esta é a terceira tentativa de lhe entregar uma carta. Se for do seu interesse, depois de ler esta, também posso lhe entregar as outras.

Depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que não posso mais guardar esse sentimento somente para mim. Estou me confessando, me declarando... seja como for, preciso dizer que gosto de você.

Esse sentimento está ficando mais forte a cada dia e já não consigo mais suportar ficar calada.

Hoje conversei com minha prima, que também é minha melhor amiga. Perguntei se ela havia percebido algum interesse seu por ela e se ela mesma sentia algo. Ela disse que não, que tudo não passava de uma história inventada pela molecada.

Enfim...

Eu não aguento mais pensar em como dizer isso e muito menos continuar rasgando papéis e recomeçando cartas.

Talvez você não esteja entendendo nada, mas a verdade é simples: eu gosto de você e não sei como falar, muito menos como demonstrar.

Tudo está estranho. Sinto que estou diferente. Não paro de pensar em você. Sinto ciúmes das amigas da sua irmã e aquela saudade que antes parecia apenas uma sensação agora realmente dói.

Tenho medo. Meu coração acelera quando vejo você, minha voz desaparece e, de repente, fico sem assunto.

Acho que ultrapassei meus próprios limites tentando suportar tudo em silêncio. Está me fazendo mal ficar parada quando eu poderia simplesmente dizer:

Eu gosto de você.

E gosto muito.

Quando mencionei seu sumiço naquele último dia em que nos vimos, você disse que eu estava diferente e que, por isso, não me chamava mais em casa.

Percebe como as coisas ao meu redor estão estranhas?

Eu peço desculpas. Como disse, estou mudando. Até meus pais perceberam que estou diferente, mais distraída e até mais rude.

Talvez seja porque tenho tantas coisas para dizer e não consigo.

Mas agora está dito.

Espero que compreenda essa mudança estranha e repentina.

Eu ainda quero dizer tudo isso e muitas outras coisas pessoalmente, mas primeiro leia esta carta. Depois penso no que fazer.

Termino deixando um beijo e um abraço, sem esquecer do perfume.

Esse perfume que ficava maravilhoso misturado ao seu quando nos abraçávamos.

Com amor...

Priscila R. ♥

As outras cartas podem ser lidas AQUI.

29/11/2012

O Atrevido




Eu gostava quando você chegava sem avisar, assim, de repente, sem antes me telefonar. Achava tão íntimo, tão atrevido, tão natural. Gostava justamente por ser atrevido e natural. Afinal, foi assim que te conheci: atrevido e natural.

Você não chegou perguntando meu nome, não perguntou se estava tudo bem ou se poderíamos conversar. Foi logo apontando o descosturado da minha blusa e dizendo que a cor marrom não combinava comigo. Eu adorei. Eu também nunca gostei de marrom.

Achei um encanto quando você chamou seus amigos pedindo que trouxessem cervejas, porque tinha conhecido uma “mina” bacana. Eu nunca gostei dessa palavra, mas em você ela ficou curiosamente bonita.

Também não gostei daquele seu amigo de topete ensebado. Para mim, aquilo era coisa de gente que não toma banho direito. Gostei mais do seu cabelo: bagunçado, do seu jeito.

Enfim...

Me despedir de você depois de meia hora de conversa com seus amigos, porque eu já não aguentava mais ouvir sobre futebol e mulheres, foi tão... tão... tão romântico.

Eu realmente não poderia imaginar aquele beijo surpresa acompanhado da frase:

“– Amanhã estarei aqui. Venha às 21h.”

Eu, sem jeito até para dizer um simples “quem mandou me beijar?”, não sabia se deveria repreender você ou a mim mesma por ter me deixado levar por um impulso — ou pela falta dele.

Mas sou obrigada a admitir: aquele beijo enfraqueceu qualquer possibilidade de dizer não naquele momento.

Como foi que começamos a namorar?

Ah, sim... naturalmente.

Lembrei.

Como poderia esquecer o dia em que você disse:

“– Vamos ali comigo.”

E eu, ingenuamente, disse sim.

Acho que sua mãe e eu fizemos a mesma cara de pastel quando você me apresentou a ela como sua namorada. A sorte daquele dia foi que, depois de um copo d’água, conseguimos conversar naturalmente.

Pois é...

Tão natural quanto incongruente, nossa repentina distância nos impossibilitou de cultivar qualquer laço. Talvez estivéssemos presos ao ciclo das idas e voltas repentinas, mas não naturalmente preparados para recomeçar e continuar.

Não me lembro do que não foi bom.

Que bom!


16/10/2012

Autoavaliação..



Não sei exatamente qual palavra define meu jeito de ser com as pessoas, sejam amigos, colegas ou parceiros. Tenho uma maneira muito particular de existir, de participar, contribuir e me envolver.

Nem sempre sou fácil de decifrar. Poucas pessoas conseguem compreender minhas atitudes antes mesmo que eu as tome, talvez porque eu funcione muito pelo que sinto no momento. Conheço muitas pessoas, mas são poucas as que realmente caminham ao meu lado. E talvez seja justamente por isso que valorizo tanto essas poucas.

Não tenho orgulho nem vergonha de ser assim. Não vejo como uma qualidade ou um defeito absoluto, mas como uma parte de mim. Com o passar dos anos, aprendi a respeitar meus limites, tanto físicos quanto emocionais.

Também aprendi que preciso de momentos comigo mesma. Não tenho mais a mesma disposição para estar em todos os lugares, participar de todos os encontros ou manter uma presença constante na vida das pessoas. Eu vou quando tenho vontade, energia e espaço interno para isso.

Não sou aquela pessoa que está todos os dias mandando mensagens ou aparecendo, mas, se alguém que amo precisar de mim, estarei presente da maneira que puder.

Quem consegue compreender meu jeito provavelmente terá minha amizade por muito tempo. Sou uma pessoa de parceria, lealdade e entrega. Mas também aprendi que algumas distâncias fazem parte da vida e que nem todo afastamento precisa virar uma guerra.

Tenho necessidade de ficar comigo, de preservar minha individualidade e minha independência. E talvez a única coisa que espero das pessoas seja compreensão, assim como tento oferecer compreensão àqueles que fazem parte da minha vida.

Já perdi pessoas importantes, já vivi despedidas e aprendi que seguir em frente também é uma forma de amar. Nem todo amor precisa permanecer perto para continuar existindo.

Enfim, estar distante não significa não me importar. O silêncio não significa ausência de sentimento. Apenas significa que, às vezes, eu preciso do meu próprio espaço para continuar sendo quem sou.



30/09/2012

Queira eu querer você..


Quisera eu que todos os dias fossem como hoje, neste início de noite fresca e compassiva. Que em todas as noites e dias eu pudesse sentir sem exceder o limite das minhas emoções. Que eu pudesse amar, somente amar, sem querer ter, sem necessitar...

Quisera eu poder dominar este instante, torná-lo constante, guardá-lo com chave. Que em todos os dias e noites eu pudesse registrar o momento e traduzi-lo em palavras. Que eu pudesse me contentar apenas por ter tido o privilégio de conhecer este prazer...

Quisera eu conseguir acalmar meu corpo, que exige por seus toques. Que em todas as noites ou dias eu pudesse acalentar meu desejo com a possibilidade de estar junto. Que eu pudesse me aquietar sabendo que, se eu acordar durante a noite e sentir tua falta, eu poderia apenas me virar para o lado e te abraçar...