11/09/2026

O tempo da garoa fria

— e a euforia que, aos poucos, vai perdendo calor.


Hoje, a chuva não está convidativa ao aconchego.

Cai sem ternura, miúda e insistente, como se soubesse que há noites em que até ela perde o encanto.

Aquela euforia de querer sentir, de deixar o corpo lembrar que ainda é capaz de estremecer, vai se desfazendo na ausência de uma resposta. E o sentido, aos poucos, esvai-se como garoa fina sobre a madrugada solitária.

A espera de alguém.

Ou talvez a espera apenas pelo retorno de uma possibilidade.

Aquela sensação de quem imaginávamos chegar permanece na mesma proporção da falta de luzes numa rua escura: sabemos que há um caminho, mas não sabemos se alguém virá por ele.

E esse vazio corrói.

Corrói justamente aquilo que poderia ser tão verdadeiro, único e belo.

Porque há sentimentos que não nascem para serem explicados: nascem para serem vividos.

E este, eu queria vivê-lo.

A distância desfaz a possibilidade de um encontro. Ou talvez seja o desinteresse da outra parte que, silenciosamente, se anuncia. Há ausências que não precisam ser declaradas; o silêncio, quando quer, sabe ser bastante eloquente.

Mas eu não sei desfazer o que sinto e que me faz tão bem.

Nem quero.

Não sei apagar o abraço que iluminou uma escuridão à qual eu já estava acostumada. Não quero fingir que aquele calor não atravessou a minha pele, nem que o desejo não encontrou, por um instante, um lugar onde repousar.

Continuo no tempo, então.

Não à espera de uma promessa.

À espera de que a vida me diga por que me fez sentir tanto, se não era para acontecer.

Até ontem, o desejo era leve. Gostoso de sentir. Uma espécie de descoberta que o corpo fazia sem pedir licença.

Hoje, porém, há urgência.

Não a urgência de possuir.

A de sentir.

Sentir o calor que a distância não consegue inventar.

A proximidade.

O encontro.

O corpo junto ao corpo, não como quem implora por presença, mas como quem sabe exatamente o que deseja quando a oportunidade finalmente chega.

Quero a pele encontrando a pele.

Quero o abraço que não termina depressa.

Quero o beijo que faça a noite esquecer as horas.

Quero sentir-me viva — inteira, desperta, sem a delicadeza excessiva de quem teme desejar demais.

Porque desejo não é falta.

É excesso de vida.

E, se a chuva hoje não convida ao aconchego, talvez seja porque há noites que não foram feitas para nos abrigar.

Há noites que nos lembram, justamente, do quanto ainda queremos sentir.

10/09/2026

Epifanias: Palavrear

 

Talvez a terapia não comece quando encontramos uma resposta.

Talvez comece quando finalmente conseguimos falar, palavrear o que nos sufoca.

Há coisas que pensamos durante anos sem jamais dizê-las. Elas permanecem dentro de nós como pensamentos inacabados, frases interrompidas antes do ponto final, pequenas verdades que nos rondam, mas que nunca ousamos encarar de frente.

Até que alguém pergunta:

— E o que você sente?

E então falamos.

Falamos sobre aquilo que nos incomoda, sobre o que nos feriu, sobre aquilo que fingimos não desejar, sobre as pessoas que ainda habitam em nós e lugares que julgamos vazios. Falamos até mesmo sobre coisas que, enquanto estavam apenas dentro de nós, pareciam confusas demais para receber um nome.

Até mesmo essa confusão tem sentido: não é ser vazio, é ser muito.

E acontece algo curioso.

Enquanto falamos, começamos a ouvir.

Não o outro.

A nós mesmos.

E, às vezes, entendemos os porquês.

É como se a voz, ao atravessar o espaço entre a boca e os ouvidos, ganhasse uma nitidez que o pensamento jamais teve.

Aquilo que parecia um emaranhado começa a adquirir contornos.

Aquilo que parecia um abismo revela uma margem.

Aquilo que parecia não ter saída começa, de repente, a possuir uma porta.

E as coisas se encaixam.

Ou talvez seja essa a grande ironia da terapia: entramos procurando alguém que nos diga o que fazer e, pouco a pouco, descobrimos que ninguém poderia nos responder melhor do que aquilo que já sabíamos — mas ainda não conseguíamos escutar.

Mas isso não significa que o outro seja dispensável.

Há uma diferença entre encontrar a própria voz e encontrá-la sozinho.

Às vezes, precisamos de alguém que permaneça do outro lado enquanto falamos. Alguém que escute sem se apressar em preencher nossos silêncios, que reconheça aquilo que ainda não conseguimos nomear e, de vez em quando, nos ofereça uma palavra, uma pergunta, uma possibilidade.

Não para caminhar por nós.

Apenas para iluminar, por um instante, o trecho do caminho que ainda não conseguíamos enxergar.

A epifania, às vezes, não chega como um clarão.

Chega como uma frase.

Uma frase qualquer, dita quase sem intenção, no meio de uma sessão.

E, depois de pronunciá-la, permanecemos em silêncio por alguns segundos.

Porque entendemos.

Não foi apenas o que dissemos.

Foi também o que alguém soube ouvir.

E talvez seja aí que a terapia encontre sua beleza: entre aquilo que conseguimos dizer e aquilo que o outro nos ajuda a perceber, alguma coisa dentro de nós finalmente encontra lugar.

As respostas estavam ali o tempo inteiro.

Mas algumas verdades precisam ser ditas em voz alta para deixar de ser apenas pensamento e tornar-se consciência.

E talvez mudar não seja, afinal, descobrir quem devemos ser.

Talvez seja reconhecer, entre todas as vozes que aprendemos a carregar, aquela que sempre soube para onde ir.

Ou talvez a terapia não nos ensine necessariamente a encontrar respostas.

Talvez nos ensine a permanecer diante das perguntas tempo suficiente para que elas próprias nos revelem uma possibilidade.

Porque é nesse pequeno intervalo — entre aquilo que pronunciamos e aquilo que finalmente compreendemos — que, às vezes, uma vida inteira muda de direção.

Talvez seja por isso que algumas respostas demorem tanto a chegar.

Não porque estejam distantes.

Mas porque, antes delas, precisamos aprender a dizer o que sentimos, suportar o silêncio que vem depois e escutar aquilo que, há tanto tempo, tentávamos nos dizer.

E quando finalmente ouvimos, alguma coisa se abre.

Não necessariamente uma saída.

Às vezes, apenas um sentido.

E, por enquanto, talvez seja tudo o que precisamos.

08/09/2026

Respostas: entre a liberdade e a existência

 Quisera eu saciar este desejo

de te despir por inteiro,

no silêncio de uma tarde chuvosa e fria.

Ter a liberdade de te encontrar,

de te abraçar,

de te beijar,

até que a tarde se entregue à noite.

E, quando o silêncio chegar,

não cessar,


Continuar...

06/09/2026

O silêncio do meu barulho

 

Há silêncios que não são vazios; são lugares onde a imaginação faz barulho.

Do telefone mudo, o peso sufoca a sala. Na gaveta esquecida, dormem as cartas não retornadas, carregando aquele amor que se escondeu atrás de reticências. À mesa do café, senta-se um olhar perdido, lembrando momentos que não são esquecidos.

É a vida, em sua ironia mais fina, cobrando respostas para perguntas que ninguém teve coragem de fazer. E esse calar absurdo nos deixa à deriva, perdidos no oceano de um quarto escuro, sem bússola, sem farol.

Ouve-se, na solidão, um grito pontiagudo. Ele machuca, escava o peito como lâmina cega, transformando a ausência do outro em uma presença física, pesada, incômoda. É um nó na garganta que a linguagem ordinária não consegue desfazer.

Mas, se por fora o mundo parece ter esquecido o som da sua voz, por dentro o cenário é outro.

Nisso reside a verdadeira dor — e a beleza selvagem — do silêncio: ele nunca é passivo.

No fundo do peito, queima uma agitação secreta. Há um caos pulsante de vontades reprimidas, um desejo quase violento de rasgar o ar, experimentar a rua, mudar a rota antes que o dia termine. A mente vira uma praça em dia de festa, abarrotada de pensamentos que dançam, gritam e exigem passagem.

Quer-se viver com uma fome que só o isolamento consegue fabricar.

O silêncio do outro pode ser um abismo, sim, e a ausência de respostas, um castigo imerecido. Contudo, é nesse mesmo vácuo que a alma reencontra sua própria urgência.

Enquanto o mundo exterior assiste ao seu mutismo, dentro de mim renasce o barulho irreversível de quem decidiu continuar. Mas se quiser me acompanhar, segure em minhas mãos.

05/09/2026

Procura-me

 

A chuva escorre fria, lenta, pela vidraça,
Aumentando a vontade de invadir teu espaço,
E atender à fome ferina por teu abraço,
Que na procura por teu beijo me enlaça.

Onde a paixão em névoa me alaga,
Há um pulso urgente, um sinal discreto,
Um mapa secreto de um desejo inquieto,
Que nenhuma distância cruel apaga.

Quando a frequência exata da tua fala,
Segredo escrito em tom quase um gemido
E sopra o meu nome junto ao meu ouvido,
Num murmúrio suspenso que me desarma.

Procura-me, peça-me, vence essa distância,
Vem satisfazer o que a pele carece e suplica,
No enigma febril por teu toque que me explica
E sacia os desejos do meu corpo em ânsia.


♥♥♥

22/08/2026

Você permanece em mim...

 

A poltrona ainda guarda o molde da ausência, como se o tecido se recusasse a esquecer quem partiu. Sua voz, que antes habitava o eco desta espera, já não encontra caminho no silêncio desta casa.

A distância agora é um abismo, extensão exata para desatar o nó que fomos. Aquele olhar — antes enigma e morada — já não me decifra, não me toca, não me tem.

Sumiu o laço, apagou-se o afeto. Não restou sequer o peso de um até logo.

Mas ainda nos resta a melodia que demos um ao outro, trilha eterna do que fomos e do que poderíamos ser. Ainda ecoam tuas palavras doces, lembrando que o tempo cura, que a dor lapida a alma e traz sabedoria. Que a vida já acontece no próprio caminhar, e que até o processo guarda sua dose de alegria — basta mirar o horizonte.

Hoje a distância nos separa, mas você permanece: é o sabor do vinho que pacifica a mente e acalma o peito; é o sussurro que me desperta ao amanhecer, chamando-me para honrar o destino traçado em minhas mãos, enquanto entrego o amanhã ao tempo.

A ausência habita a casa, mas tua presença me ocupa: sinto teus gestos, tuas mãos, a textura de nós dois. Você é o propósito que me faz transcender limites, meu sonho doce em plena luz do dia, o combustível sutil que me fortalece, molda meu corpo e desperta minha força. És meu pré-treino que me embebeda de desejo e me devolve o ânimo.

Aqui estou, recompondo-me dos atritos que o mundo impõe, em um grito mudo de saudade, na urgência do teu abraço. Anseio por tocar teu corpo com o traço das minhas mãos e reencontrar teus lábios nos meus.

É um caminho árduo, denso, doloroso, mas suplico ao tempo, em silêncio, que encontre uma forma de te trazer de volta para mim.

16/08/2026

O descompasso que te exige

 

Há noites, um vazio em que o juízo me cala.

Rejeito o sono, negocio com a lucidez, perco a razão.
Faço do meu desejo um altar secreto e clandestino.

Procuro na memória o tom perfeito da tua voz,
que me desnudava devagar depois que eu falava

Revivo a vertigem do teu abraço apertado,
que me fez renunciar à compostura, ao limite
só para sentir o teu calor, teus braços em minha cintura.

Invento na mente o percurso das tuas mãos,
em cenários que só a noite ousa revelar.

Entrego meus impulsos a essa tentação,
tão fina quanto feroz.

E suplico ao tempo,
pela urgência do teu toque.

Porque já não consigo mais me linear,
nem encontro palavras que não tremam.

Porque há desejos que não cabem em versos.
E há nomes que desorganizam a poesia,

                                                             a rima,

                                                                     a mente,

                                                                                 o controle,

                                                                                               o silêncio,

                                                                                                            a ordem,

                                                                                                                        a sintonia,

                                                                                                                                     (...)

A razão!