— e a euforia que,
aos poucos, vai perdendo calor.
Hoje, a chuva não está convidativa ao aconchego.
Cai sem ternura, miúda e insistente, como se soubesse que há
noites em que até ela perde o encanto.
Aquela euforia de querer sentir, de deixar o corpo lembrar
que ainda é capaz de estremecer, vai se desfazendo na ausência de uma resposta.
E o sentido, aos poucos, esvai-se como garoa fina sobre a madrugada solitária.
A espera de alguém.
Ou talvez a espera apenas pelo retorno de uma possibilidade.
Aquela sensação de quem imaginávamos chegar permanece na
mesma proporção da falta de luzes numa rua escura: sabemos que há um caminho,
mas não sabemos se alguém virá por ele.
E esse vazio corrói.
Corrói justamente aquilo que poderia ser tão verdadeiro,
único e belo.
Porque há sentimentos que não nascem para serem explicados:
nascem para serem vividos.
E este, eu queria vivê-lo.
A distância desfaz a possibilidade de um encontro. Ou talvez
seja o desinteresse da outra parte que, silenciosamente, se anuncia. Há
ausências que não precisam ser declaradas; o silêncio, quando quer, sabe ser
bastante eloquente.
Mas eu não sei desfazer o que sinto e que me faz tão bem.
Nem quero.
Não sei apagar o abraço que iluminou uma escuridão à qual eu
já estava acostumada. Não quero fingir que aquele calor não atravessou a minha
pele, nem que o desejo não encontrou, por um instante, um lugar onde repousar.
Continuo no tempo, então.
Não à espera de uma promessa.
À espera de que a vida me diga por que me fez sentir tanto,
se não era para acontecer.
Até ontem, o desejo era leve. Gostoso de sentir. Uma espécie
de descoberta que o corpo fazia sem pedir licença.
Hoje, porém, há urgência.
Não a urgência de possuir.
A de sentir.
Sentir o calor que a distância não consegue inventar.
A proximidade.
O encontro.
O corpo junto ao corpo, não como quem implora por presença,
mas como quem sabe exatamente o que deseja quando a oportunidade finalmente
chega.
Quero a pele encontrando a pele.
Quero o abraço que não termina depressa.
Quero o beijo que faça a noite esquecer as horas.
Quero sentir-me viva — inteira, desperta, sem a delicadeza
excessiva de quem teme desejar demais.
Porque desejo não é falta.
É excesso de vida.
E, se a chuva hoje não convida ao aconchego, talvez seja
porque há noites que não foram feitas para nos abrigar.
Há noites que nos lembram, justamente, do quanto ainda
queremos sentir.