06/09/2026

O silêncio do meu barulho

 

Há silêncios que não são vazios; são lugares onde a imaginação faz barulho.

Do telefone mudo, o peso sufoca a sala. Na gaveta esquecida, dormem as cartas não retornadas, carregando aquele amor que se escondeu atrás de reticências. À mesa do café, senta-se um olhar perdido, lembrando momentos que não são esquecidos.

É a vida, em sua ironia mais fina, cobrando respostas para perguntas que ninguém teve coragem de fazer. E esse calar absurdo nos deixa à deriva, perdidos no oceano de um quarto escuro, sem bússola, sem farol.

Ouve-se, na solidão, um grito pontiagudo. Ele machuca, escava o peito como lâmina cega, transformando a ausência do outro em uma presença física, pesada, incômoda. É um nó na garganta que a linguagem ordinária não consegue desfazer.

Mas, se por fora o mundo parece ter esquecido o som da sua voz, por dentro o cenário é outro.

Nisso reside a verdadeira dor — e a beleza selvagem — do silêncio: ele nunca é passivo.

No fundo do peito, queima uma agitação secreta. Há um caos pulsante de vontades reprimidas, um desejo quase violento de rasgar o ar, experimentar a rua, mudar a rota antes que o dia termine. A mente vira uma praça em dia de festa, abarrotada de pensamentos que dançam, gritam e exigem passagem.

Quer-se viver com uma fome que só o isolamento consegue fabricar.

O silêncio do outro pode ser um abismo, sim, e a ausência de respostas, um castigo imerecido. Contudo, é nesse mesmo vácuo que a alma reencontra sua própria urgência.

Enquanto o mundo exterior assiste ao seu mutismo, dentro de mim renasce o barulho irreversível de quem decidiu continuar. Se quiser me acompanhar, segure em minhas mãos.

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