Há silêncios que não são vazios; são lugares onde a
imaginação faz barulho.
Do telefone mudo, o peso sufoca a sala. Na gaveta esquecida,
dormem as cartas não retornadas, carregando aquele amor que se escondeu atrás
de reticências. À mesa do café, senta-se um olhar perdido, lembrando momentos
que não são esquecidos.
É a vida, em sua ironia mais fina, cobrando respostas para
perguntas que ninguém teve coragem de fazer. E esse calar absurdo nos deixa à
deriva, perdidos no oceano de um quarto escuro, sem bússola, sem farol.
Ouve-se, na solidão, um grito pontiagudo. Ele machuca,
escava o peito como lâmina cega, transformando a ausência do outro em uma
presença física, pesada, incômoda. É um nó na garganta que a linguagem
ordinária não consegue desfazer.
Mas, se por fora o mundo parece ter esquecido o som da sua
voz, por dentro o cenário é outro.
Nisso reside a verdadeira dor — e a beleza selvagem — do
silêncio: ele nunca é passivo.
No fundo do peito, queima uma agitação secreta. Há um caos
pulsante de vontades reprimidas, um desejo quase violento de rasgar o ar,
experimentar a rua, mudar a rota antes que o dia termine. A mente vira uma
praça em dia de festa, abarrotada de pensamentos que dançam, gritam e exigem
passagem.
Quer-se viver com uma fome que só o isolamento consegue
fabricar.
O silêncio do outro pode ser um abismo, sim, e a ausência de
respostas, um castigo imerecido. Contudo, é nesse mesmo vácuo que a alma
reencontra sua própria urgência.
Enquanto o mundo exterior assiste ao seu mutismo, dentro de mim
renasce o barulho irreversível de quem decidiu continuar. Se quiser me
acompanhar, segure em minhas mãos.
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