A poltrona ainda guarda o molde da ausência, como se o
tecido se recusasse a esquecer quem partiu. Sua voz, que antes habitava o eco
desta espera, já não encontra caminho no silêncio desta casa.
A distância agora é um abismo, extensão exata para desatar o
nó que fomos. Aquele olhar — antes enigma e morada — já não me decifra, não me
toca, não me tem.
Sumiu o laço, apagou-se o afeto. Não restou sequer o peso de
um até logo.
Mas ainda nos resta a melodia que demos um ao outro, trilha
eterna do que fomos e do que poderíamos ser. Ainda ecoam tuas palavras doces,
lembrando que o tempo cura, que a dor lapida a alma e traz sabedoria. Que a
vida já acontece no próprio caminhar, e que até o processo guarda sua dose de
alegria — basta mirar o horizonte.
Hoje a distância nos separa, mas você permanece: é o sabor
do vinho que pacifica a mente e acalma o peito; é o sussurro que me desperta ao
amanhecer, chamando-me para honrar o destino traçado em minhas mãos, enquanto
entrego o amanhã ao tempo.
A ausência habita a casa, mas tua presença me ocupa: sinto
teus gestos, tuas mãos, a textura de nós dois. Você é o propósito que me faz
transcender limites, meu sonho doce em plena luz do dia, o combustível sutil
que me fortalece, molda meu corpo e desperta minha força. És meu pré-treino que
me embebeda de desejo e me devolve o ânimo.
Aqui estou, recompondo-me dos atritos que o mundo impõe, em
um grito mudo de saudade, na urgência do teu abraço. Anseio por tocar teu corpo
com o traço das minhas mãos e reencontrar teus lábios nos meus.
É um caminho árduo, denso, doloroso, mas suplico ao tempo,
em silêncio, que encontre uma forma de te trazer de volta para mim.
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