22/08/2026

Você permanece em mim...

 

A poltrona ainda guarda o molde da ausência, como se o tecido se recusasse a esquecer quem partiu. Sua voz, que antes habitava o eco desta espera, já não encontra caminho no silêncio desta casa.

A distância agora é um abismo, extensão exata para desatar o nó que fomos. Aquele olhar — antes enigma e morada — já não me decifra, não me toca, não me tem.

Sumiu o laço, apagou-se o afeto. Não restou sequer o peso de um até logo.

Mas ainda nos resta a melodia que demos um ao outro, trilha eterna do que fomos e do que poderíamos ser. Ainda ecoam tuas palavras doces, lembrando que o tempo cura, que a dor lapida a alma e traz sabedoria. Que a vida já acontece no próprio caminhar, e que até o processo guarda sua dose de alegria — basta mirar o horizonte.

Hoje a distância nos separa, mas você permanece: é o sabor do vinho que pacifica a mente e acalma o peito; é o sussurro que me desperta ao amanhecer, chamando-me para honrar o destino traçado em minhas mãos, enquanto entrego o amanhã ao tempo.

A ausência habita a casa, mas tua presença me ocupa: sinto teus gestos, tuas mãos, a textura de nós dois. Você é o propósito que me faz transcender limites, meu sonho doce em plena luz do dia, o combustível sutil que me fortalece, molda meu corpo e desperta minha força. És meu pré-treino que me embebeda de desejo e me devolve o ânimo.

Aqui estou, recompondo-me dos atritos que o mundo impõe, em um grito mudo de saudade, na urgência do teu abraço. Anseio por tocar teu corpo com o traço das minhas mãos e reencontrar teus lábios nos meus.

É um caminho árduo, denso, doloroso, mas suplico ao tempo, em silêncio, que encontre uma forma de te trazer de volta para mim.

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