Era uma tarde chuvosa. O dia já estava terminando quando o telefone tocou. Atendi, mas ninguém respondeu. Havia tempos que, quase todos os dias, no mesmo horário, principalmente quando chovia, as ligações e o silêncio se repetiam.
Naquele dia, consegui ouvir um suspiro, como se, finalmente, a pessoa fosse dizer alguma coisa, mas desligou em seguida. Vieram-me à mente algumas lembranças, mas nada que me fizesse ter certeza ou sequer suspeitar de alguém. Pensei que talvez a chuva tivesse algum significado. Ela descartaria algumas possibilidades e ressaltaria outras. Enfim, deixei aquilo de lado, continuei meus afazeres e fui tomar um banho para encontrar alguns amigos mais tarde.
Já arrumada, quando estava prestes a sair de casa, fui interrompida pela lembrança do telefonema. Tive a sensação de que o telefone tocaria novamente, como se eu estivesse esperando mais uma ligação. Ao mesmo tempo, tentava lembrar de quem era aquela respiração quase expressiva. Alguém respirava daquele jeito... mas quem?
Como previ, o telefone tocou outra vez. Desta vez, atendi sem dizer nada. Do outro lado, a pessoa também permaneceu em silêncio. Ficamos assim por alguns segundos, até que ouvi novamente aquele suspiro. Logo depois, a ligação foi encerrada.
Desta vez senti uma necessidade enorme, quase incontrolável, de descobrir quem era. Senti saudade também. Saudade de alguém que eu não via havia muito tempo. E, ao pensar nessa pessoa, lembrei-me dos inúmeros banhos de chuva que tomamos em ocasiões imprevistas e inevitáveis. Sorri sozinha.
Por um instante, imaginei que pudesse ser ele. Mas a ideia logo se desfez quando me lembrei do fim do nosso relacionamento. Se, naquela época, o que sentíamos não foi capaz de superar a distância entre as cidades onde morávamos, não seria agora que algo mudaria. Creio que ainda vivemos em cidades diferentes. Não... não pode ser, pensei.
Senti tristeza. Vontade de chorar. Eu não queria me lembrar de uma época em que meus desejos foram interrompidos por uma distância tão tola, que nos obrigou a terminar algo que poderia ter sido tão bonito. Foi um período difícil, em que precisei reprimir o amor que sentia e inventar um novo caminho até conseguir me estabilizar. Eu o amei demais em tão pouco tempo de convivência.
A chuva passou. Peguei meu carro e saí sem rumo. Já havia me esquecido do encontro com os amigos e, para ser sincera, já não tinha ânimo para vê-los. Continuei dirigindo em círculos, tentando acalmar a saudade que insistia em permanecer comigo.
Em meio às ruas por onde passei, percebi que estava refazendo o mesmo caminho que fazia anos atrás para encontrá-lo nos dias de sol. Quase por impulso, continuei dirigindo até o canto da cidade que dava acesso ao lugar de onde podíamos contemplar toda a cidade. Era um lugar lindo.
Ao sair do carro, caminhei até a árvore onde demos nosso primeiro beijo. Senti um calafrio percorrer meu corpo. Veio o desespero, a tristeza, um nó na garganta... Lembrei-me de sentimentos que estavam guardados havia tanto tempo em meu subconsciente, impedindo que o consciente os trouxesse de volta.
Saí depressa daquele lugar que fazia meus olhos lacrimejarem. Depois de ouvir um trovão anunciar a volta da chuva, caminhei rapidamente até o carro. Nesse instante, meu celular tocou. Com a voz embargada, mal consegui dizer um simples "alô". Respirei fundo e, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ouvi a voz que eu mais desejava — e, ao mesmo tempo, menos esperava — dizendo para que eu não fosse embora.
— Everson? — respondi, ainda atordoada.
Ele disse que desceria de seu apartamento em dez minutos para me encontrar.
Apartamento? Pensei, completamente estonteada.
Foram os dez minutos mais demorados da minha vida. Então o vi caminhando em minha direção. Reconheci aquele corpo, aquele jeito de andar, mesmo de longe. Era ele.
Quando se aproximou, contou que havia se mudado para a minha cidade e comprado um apartamento com vista para aquela árvore. Era o único condomínio privilegiado com aquela paisagem. Perguntou por que eu ainda não havia trocado de carro e nem de número de telefone.
Mal consegui responder à primeira pergunta. Ele tocou meu rosto e me beijou, sem pedir permissão.
Correspondi ao beijo. Senti o lugar aquecer, percebi o canteiro de flores ao lado da nossa árvore e as luzes da cidade pareciam mais bonitas do que nunca. Então começou a chover.
Eu me entreguei mais uma vez. Dei uma nova chance para mim... e para o homem que eu nunca havia deixado de amar.

2 comentários:
E para quando o casamento?
:)))
Não me fales em casamento que sinto alergia, meu querido.. rs. É apenas uma estória imaginada.
Bjos.
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