09/08/2026

Enquanto o silêncio dizia...

 Aquela tempestade de desabafos e escutas atentas já pertencia ao passado, e a cura começava a chegar. Ele restabelecera a ordem em seu caos interno, embora o peito ainda permanecesse habitado por um vazio febril.

Ela, sentada de frente para ele, de pernas cruzadas, o vestido ajustado ao corpo e os olhos sempre marejados.

Ele permanecia na poltrona oposta, de pernas abertas, as mãos entrelaçadas sobre os joelhos e a cabeça levemente inclinada. O olhar, porém, continuava atento, absorvendo cada palavra que saía de sua boca.

A memória, contudo, insistia em reencenar os diálogos que deveriam ser descritos naquele espaço. Ela já não falava linearmente; precisava apenas encontrar uma maneira de contar o que sentia.

— Eu não consigo encontrar as palavras certas para dizer o que realmente sinto aqui. Mas acho que, depois de toda a bagunça se organizar, fui envolvida por uma paixão repentina. Não entendo o porquê e não sei como descrevê-la — começou ela, com a voz veludosa e o olhar fixo no dele.

— Certas emoções surgem justamente quando a mente tenta reorganizar o caos. O afeto repentino, muitas vezes, é apenas a transferência da dor que se esvai, dando lugar ao novo, às possibilidades — respondeu ele, franzindo a testa e inclinando-se levemente para trás. Em seguida, retomou a postura, ajeitando os óculos.

Ela sorriu de canto, descruzando e recruzando as pernas em um movimento lento. Gostava de vê-lo desconcertado, tentando decifrá-la.

— Não é bem isso... O sentimento que tenho por esse alguém é grande demais para caber em diagnósticos, forte demais para permanecer guardado e bonito demais quando penso nele. Porém, existe um fervor, uma urgência que a ética não me permite ultrapassar — provocou ela, deixando o duplo sentido pairar entre os dois.

Ele permaneceu alguns segundos em silêncio, como quem organizava uma resposta. Ajustou os óculos novamente e o colarinho num gesto rápido de desconforto. Recompôs-se em instantes, mantendo a postura sóbria e o olhar compenetrado sobre ela.

— A ética nos protege de agir por impulsos momentâneos, permitindo que a razão separe o desejo e o que nos desborda; quando o sentimento parece urgente demais, é prudente observar a distância entre o que se projeta e a realidade do espaço em que estamos — disse ele, ajeitando as mãos e fingindo não compreender para preservar o enquadre.

— De fato. Mas o que devemos fazer quando nenhuma teoria apaga o desejo de estar junto? Se apenas um olhar intenso me deixa querendo ultrapassar a prudência deste espaço? — disse ela, inclinando o corpo com um brilho provocante nos olhos úmidos.

Ele sentiu o peso da provocação. Sustentou o contato visual por longos segundos sem piscar, a respiração ligeiramente mais acelerada, deixando escapar pela primeira vez uma fresta do que realmente sentia.

— Talvez — disse ele, a voz baixando meio tom, num tom mais íntimo, porém ainda contido — a verdadeira sabedoria não esteja em explicar o olhar e o desejo, mas em reconhecer que certas atrações simplesmente existem... mesmo quando precisamos aprender a conviver com o silêncio dela.

Ela suspirou devagar, o olhar perdendo-se por um instante na linha do horizonte fora da janela antes de retornar aos olhos dele.

— A vida realmente nos surpreende e nos coloca diante de situações que não sabemos como resolver... Onde o sentir e o dever caminham em direções opostas — disse ela, a voz carregada de uma doçura melancólica.

— Sim... Algumas rotas exigem renúncias que a razão mal consegue justificar — respondeu ele, a voz pausada. Fez um silêncio breve, buscando as palavras certas para o anúncio final. — E há caminhos que precisam mudar de rumo. Devo encerrar minhas atividades neste espaço em breve; me mudarei para outra cidade nos próximos dias.

Ela ficou imóvel. O impacto das palavras caiu sobre ela como um peso invisível. Não houve sobressaltos, apenas uma dor muda que lhe travou a fala. A fome de estar com ele colidiu com a certeza irreversível do fim. Baixou os olhos devagar e deixou que as lágrimas, reprimidas, escorressem silenciosas por seu rosto, desenhando a dor de um fim sem começo.

Ele a observou em silêncio, sentindo o peito oprimir-se diante daquele choro sereno e devastador.

Ela levantou-se com uma lentidão dolorosa, a postura ainda elegante, mas despida de qualquer provocação. Caminhou até a saída e virou-se uma última vez, olhando em seus olhos.

Sem dizer mais nada, ele se levantou e encurtou a distância entre os dois, envolvendo-a em um abraço.

Aquele gesto colapsou meses de contenção. O abraço apertado e demorado trouxe à tona tudo o que as palavras haviam calado: uma atração avassaladora, uma paixão represada e a dor da saudade que começava ali mesmo. No calor do peito dele e no perfume dos cabelos dela.

Os dois sentiram a urgência de um desejo mútuo e a lamentação silenciosa por uma paixão que nasceu perfeita, mas no tempo e no espaço errados.

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