Gostava tanto de quando ele me chamava pelo nome. Dizia-o com uma voz aveludada, baixa, pausada, dando a cada sílaba o peso do carinho e de um desejo apenas insinuado.
Entrávamos. Aos poucos, nos aproximávamos.
— Conte para mim... o que pesa aí dentro? — dizia ele, num
sussurro grave que sempre me trazia segurança.
Ah... o jeito dele.
Sentava-se com aquela presença inquestionável, no clássico
estilo de homem: pernas abertas, ocupando o espaço com uma segurança serena que
me desarmava. As mãos permaneciam entrelaçadas, como as de quem se acomoda para
ficar. Mantinha a cabeça levemente baixa, mas os olhos... os olhos erguiam para
mim por longos instantes. Fixos. Profundos. Quase sem piscar. Era o olhar de
quem enxergava a alma sem pedir licença, sem fazer esforço algum.
O relógio na parede parecia desacelerar apenas para nos
conceder mais alguns minutos. A conversa se estendia. Eu falava, desabafava,
deixava as palavras escorrerem como um rio raso, carregando a tristeza pesada
que me apertava o peito.
As lágrimas represadas ameaçavam cair, e a saudade de algo
que nem eu sabia nomear me sufocava.
Mas ele permanecia ali.
Esperava.
Nunca me interrompia. Eu podia falar por minutos, talvez
horas; ele ouvia cada palavra e só respondia quando percebia que minha voz
começava a embargar. Eu admirava profundamente aquele gesto. Achava-o
incrivelmente atraente, de uma delicadeza rara. Em nenhum instante parecia
entediado. Ao contrário: tinha a expressão de quem devorava minhas palavras e,
ainda assim, parecia desejar ouvir mais.
— Eu não sei o que fazer com tudo isso... — murmurei, com a
voz trêmula e os olhos marejados, onde o verde se perdia entre diferentes tons
de vermelho.
Num movimento lento e preciso, ele se ajeitou à minha
frente. Respondendo com uma delicadeza que contrastava com a firmeza de quem
precisava dizer algo importante, sempre medindo as palavras para não me ferir.
Falava como quem me traduzia para mim mesma.
As palavras em seus lábios eram um lenitivo para o meu
desespero. Aos poucos, eu me acalmava, como se ele me despisse das angústias e
oferecesse sentido às minhas manias.
Mas chegou a hora de partir.
Suas palavras de despedida me desordenavam, como se as
paredes se desfizessem ao meu redor, tingindo a sala de penumbra e silêncio.
Deixei que fosse embora sem dizer o quanto eu sentia. Apenas
um "obrigada", sufocado entre a garganta apertada e lágrimas
silenciosas.
Então veio o abraço.
O tempo congelou no exato instante em que nos tocamos.
Encurralada entre o consolo e a tentação daquele abraço apertado, senti o calor
do acolhimento transformar-se em saudade... e a saudade, lentamente, em paixão.
Desde então, penso. Quero. Anseio. Desejo. Ardo. Clamo... e
espero, um dia, voltar a ficar leve.
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