...neste intervalo entre nós.
Eles conversavam em uma das ruas da cidade, como se o mundo
ao redor houvesse cessado o movimento, tecendo teorias entre o que já fora e a
bruma incerta do amanhã. Trocavam análises precisas, entre a banalidade dos
dias e as experiências intelectivas, que preenchiam a penumbra da noite com
passos demorados, sem lugar para chegar. No entanto, sob a clareza das
conversas, palpitava uma tensão implícita — o denso aroma de um desejo e de uma
paixão contida.
Pausou ela o olhar, cortando a abstração dos discursos.
— Entre um passado inquieto e um futuro incerto, estou
pensando no hoje — disse ela, a voz subitamente clara, despida de rodeios —, e,
neste momento, no agora.
A sobriedade da frase suspendeu o tempo. Ele a contemplou,
sentindo a gravidade da provocação.
— O que você está pensando?
— Em que hora você chegará mais perto.
Sem romper o mistério que os envolvia, deu ele o passo que
faltava. A proximidade revelou o som de suas respirações, entre o silêncio que
se pressentia em meio aos ruídos ao redor. A atmosfera, agora pulsando em
frequência mais alta, tornava-se quase audível.
— E agora? — indagou ele, o tom grave e atento.
— Em que hora vou ter aquele abraço apertado dos fins das
mensagens?
Respondeu ele com os atos. Envolveu-a num abraço firme,
traduzindo em toque a intensidade desenhada na caligrafia do cotidiano. Ali,
onde o peito encontra o peito, o universo reduziu-se à medida exata daquele
abraço.
Ainda retido naquele calor, murmurou-lhe ele ao ouvido:
— E o que mais?
Um sorriso enigmático e audaz aflorou nos lábios dela. A
sensualidade do instante pedia excessos, mas morava na promessa do invisível,
no cálculo exato do querer, na contenção de quem sabe que certos limites não se
atravessam sem que o outro também os deseje.
— Fértil é minha mente e vai muito além deste abraço —
pronunciou ela, a voz baixa, pontuada por um misto de ousadia e contenção. —
Contudo, desse limiar não posso pedir. Certas geometrias pedem teu traço, teu
toque e tua entrega; mas certos territórios só se revelam quando parte de ti o
passo seguinte.
Ele permaneceu em silêncio.
Ela encostou a cabeça em seu peito, enquanto, pouco a pouco,
desapertava o abraço. Naquele instante de vulnerabilidade, havia no gesto uma
delicadeza que não combinava com a ousadia das palavras. Como se, por trás de
toda aquela segurança, houvesse algo que ela ainda não soubesse como revelar —
algo que poderia fazê-lo permanecer ou recuar.
Ela não pediria.
Não porque lhe faltasse desejo, mas porque certos avanços
precisavam nascer da vontade de quem os recebe. Havia nela um limite que não
poderia ser ultrapassado por insistência, tampouco explicado antes que fosse
necessário. Se ele desse o próximo passo, precisaria fazê-lo sabendo que
encontraria, além do desejo, aquilo que ela carregava consigo: as marcas que a
vida lhe deixara.
E ela não sabia se ele daria.
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