Olho-me no espelho ao me despedir do dia e vislumbro, entre
as sombras, o contorno daquilo que me falta. Depois de aquietar os anseios do
corpo, persiste em mim uma inquietude desperta — como se eu buscasse, em outras
peles e outras bocas, a intensidade rara de um encontro que não se deixa
repetir: o vestígio de um desejo que só existe no singular.
Minha pele guarda o rastro de outros braços, o calor de
outros sopros na curva do pescoço, o peso morno de mãos que tentaram, com
generosidade e fôlego, me decifrar. Fui inteira em cada entrega; percorri os
caminhos do desejo até onde me foi possível, deixei que me desnudassem os
ombros e alcançassem, por instantes, as regiões mais secretas de mim. E, no
entanto, ao fim da madrugada, quando o calor cede e a delicada tessitura dos
corpos se desfaz, compreendi que não era ali que minha inquietude encontraria repouso.
Não há culpa nessa busca, tampouco desespero por reencontrar
o que um dia me atravessou ou aquilo que ainda desejo conhecer. Entreguei-me ao
vento e ao acaso, sem promessas de chegada. Conheço o peso do que desejo e a
densidade do que sou; sigo entre encontros e possibilidades, sem saber se me
aproximo de uma resposta ou apenas descubro novas formas de perguntar.
É preciso coragem para não confundir a passagem do tempo com
uma promessa de chegada — e uma dose irremediável de volúpia para se permitir
experimentar o outro, perder-se na textura de uma voz, na firmeza de um abraço,
e ainda assim ter a altivez de recolher os próprios panos e partir quando falta
o essencial. Para reconhecer o fogo exato que me acende, preciso antes tatear
as faíscas que apenas me tocam. Ainda que uma parte de mim permaneça junto
àquele que me fez vibrar sem sequer precisar me tocar, bastando chamar meu
nome.
Não é pretensão; é fidelidade ao meu próprio relevo. Não me
acomodo no morno, nem aceito o afeto que apenas preenche o espaço vago de uma
cama. Procuro aquele atrito raro, uma colisão quase física de intenções, em que
nada precise ser moldado ou perdoado para encontrar lugar. Cada encontro que
não se sustenta não me empobrece: apura meu tato, refina meu paladar e me
ensina a reconhecer, entre tantas nuances, aquilo que não me basta.
Se assim precisa ser, permitirei novas aproximações e o
risco de outros toques. Não pela certeza ingênua de que exista um encaixe
perfeito à minha espera, mas porque conheço bem demais o meu próprio querer
para me entregar pela metade ou aceitar a incompletude como destino. Enquanto
esse tremor irreconhecível não me atravessa por inteiro, prefiro a soberania da
minha própria inquietação — e a liberdade de partir quando a noite termina.
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