Poesia em prosa:
Não sei em que ponto da curva perdi aquele brilho no olhar,
nem quando se calou em mim aquela ânsia quase indomável de viver, conhecer,
experimentar.
Havia vida em mim.
Havia uma energia que me empurrava para fora, para longe,
para o desconhecido. Novos lugares, caminhos sem destino, cidades que ainda não
conhecia. Havia necessidade de mudar as cores dos cenários, experimentar novos
sabores, outros corpos, outros olhares. Como se o mundo fosse grande demais
para permanecer sendo contemplado sempre da mesma janela.
O vento mudava de direção e eu ia.
Entre caminhos diversos, sons diferentes e tantas nuances de
vida, deixava-me levar. O ar parecia mais puro, e o tempo, esse que hoje parece
sempre nos faltar, naquela época jogava a meu favor.
Fizesse sol ou chuva, não havia tempo ruim.
Molhar-se também era satisfatório.
Eu dançava conforme a música. Vestia-me de glamour, deixava
a sensualidade repousar sobre a pele como quem não lhe devia explicações. Havia
liberdade no corpo, leveza nos passos e, ao fim da noite — ou já no princípio
da madrugada —, alguma coisa em mim pousava satisfeita.
Era como dirigir sem rumo e, ainda assim, encontrar caminhos
que valessem a pena.
Havia graça no acaso.
Novos olhares. Novas bocas. Novos perfumes. Risadas gratuitas.
Novas possibilidades de existir.
E então, em algum lugar que não sei nomear, alguma coisa
mudou.
Onde foi que a vida perdeu a cor?
Onde ficaram suas maravilhas, aquela intensidade quase
absurda de sentir que estar viva bastava?
Em que curva o deslumbramento deu lugar ao cansaço?
Pelas dobras do caminho, o viço foi cedendo espaço ao peso.
Primeiro o corpo, depois a mente. Ou talvez tenham adoecido juntos, numa dessas
conspirações silenciosas que só percebemos quando já estamos longe demais de
onde começamos.
Os afetos também mudaram de nome.
O que antes era encontro passou a ser espera. O que era
entrega, ausência. E alguns amores, não correspondidos, deixaram no peito uma
espécie de desabrigo — uma casa que continua de pé, mas onde já não se sabe
muito bem quem mora.
Onde foi que me perdi?
Qual caminho tomei para chegar a este lugar que não
reconheço?
Quando foi que comecei a interrogar a vida como quem lhe
cobra explicações, em vez de simplesmente vivê-la e deixar que, no caminho,
alguma coisa me encontrasse?
Antes, eu procurava sem me preocupar com o que ia encontrar.
Pois sempre era bom.
Agora, procuro desesperadamente aquilo que um dia
simplesmente acontecia.
A liberdade continua do lado de fora. As portas não estão
trancadas. Os caminhos ainda existem.
Mas há uma prisão que ninguém vê e nem entende.
Uma corrente interna, dessas que não deixam marcas na pele,
mas restringem os passos, os sonhos. Que fazem o longe parecer inalcançável, o
prazer parecer trabalhoso demais, o êxtase parecer uma lembrança de outra dimensão.
E quando foi que os drinks foram trocados pelos lenitivos?
Quando foi que a alegria, antes encontrada nas ruas, nas
noites, nos encontros, passou a ser manipulada em farmácias?
Há qualquer ironia nisso: tentar devolver quimicamente à
mente aquilo que a vida, um dia, ofereceu de graça.
E era tão atraente, tão sedutor, tão interminável o novo;
tão vastas, as nuances das noites. Dos acasos e encontros sem procuras, sem
destinos.
Talvez por isso eu ainda busque.
Não porque queira voltar exatamente ao que fui, mas porque
sei que alguma coisa daquela mulher ainda existe em algum lugar de mim.
Eu não a deixei ir embora.
Perdi a rota.
E talvez seja essa a parte mais cansativa da busca: saber
que aquilo que procuro não está morto, apenas distante.
Então sigo.
Às vezes no escuro. Às vezes aos tropeços. Às vezes
acreditando ter encontrado uma passagem que logo se fecha diante de mim.
Mas sigo.
Porque existe uma urgência que não sei mais calar.
A urgência de viver.
De voltar a sentir sem transformar cada sensação em
pergunta, cada ausência em cobrança, cada desejo em espera.
De encontrar novamente as cores que um dia me pareciam vívidas.
De abrir as janelas.
De deixar o vento traçar uma rota nova, sem saber aonde ir –
mas sempre chegar.
E, quem sabe, algum dia, sem perceber exatamente quando
aconteceu, descobrir outra vez aquele brilho no olhar.
Como se nunca tivesse ido embora.
Como se apenas estivesse esperando que eu encontrasse o
caminho de volta, o caminho de viver e não somente existir.
Uma música:
Thursday’s Child – David Bowie.
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