Frequentavam as mesmas ruas da cidade. Iam aos mesmos bares.
Tinham os mesmos amigos.
Era fácil encontrá-los juntos, embora nenhum dos dois
soubesse, ainda, o que significava aquele encontro.
Patrícia era livre. Independente. Gostava da noite, dos
caminhos sem destino, das conversas que se estendiam até que a madrugada já não
soubesse mais se era noite ou manhã. Deixava-se levar pelos acasos, sem grandes
expectativas — sobretudo as que tivessem o amor como destino.
Victor também era livre.
Mas gostava de Patrícia.
Gostava em silêncio, na delicadeza das pequenas coisas: no
modo como a observava rir, na atenção aos detalhes que ela sequer percebia
oferecer, na presença constante de quem não precisava estar ao lado para estar
perto.
Ela nunca entendeu.
Ou talvez não quisesse entender.
Algumas feridas ensinam a desconfiar até das mãos que chegam
sem intenção de machucar. Patrícia trazia consigo os restos de outros amores —
ou do que haviam chamado de amor — e aprendera a não esperar muito das
promessas que um dia pareciam eternas.
Victor, entretanto, ainda acreditava.
E cansou de sentir sozinho.
Um dia, disse que iria embora. Mudaria de cidade.
Patrícia não gostou da notícia.
Perguntou quando. Para onde. Por quê.
Ele respondeu apenas o necessário.
Não encontrou coragem para dizer que estava indo também por
ela.
Na despedida, abraçaram-se.
Foi um abraço como tantos outros — e, ao mesmo tempo, não
foi.
Patrícia sentiu qualquer coisa se mover dentro dela. Um
calor breve, uma espécie de vertigem mansa, a vontade inexplicável de não
soltá-lo ainda.
Mas soltou.
Disfarçou.
E Victor partiu.
Foi então que a ausência começou a ocupar os lugares onde
antes estava ele.
Nos bares, Patrícia procurava seu rosto entre tantos outros.
Nas ruas, esperava encontrá-lo por acaso.
Quando acontecia alguma coisa engraçada, ainda pensava em
contar para Victor — e era somente depois que lembrava que ele já não estava
ali.
Sentiu falta das conversas sem importância, das risadas
fáceis, daquela companhia que nunca lhe havia pedido nada.
Sentiu falta dele.
E foi nesse espaço deixado pela ausência que finalmente
compreendeu o que o abraço havia tentado lhe dizer.
Ela também o amava.
Talvez tivesse começado ali.
Naquele breve instante em que seus corpos se reconheceram
antes que sua razão pudesse fazê-lo.
Mas Victor havia partido.
Restaram as lembranças e a incômoda sensação de ter
encontrado tarde demais aquilo que, enquanto perto, ela não soubera enxergar.
Até que, certa noite, entre tantas ruas já conhecidas e
tantos lugares onde ele havia deixado pequenas marcas de presença, Patrícia avistou
Victor ali, entre o movimento da cidade e a banalidade de uma noite qualquer.
Ele também a viu.
Os olhares se encontraram.
Por alguns segundos, permaneceram imóveis, como se qualquer
movimento pudesse desfazer o acaso.
Então sorriram.
Um sorriso acanhado, quase incrédulo.
Aproximaram-se devagar.
Patrícia levou as mãos ao rosto dele.
Victor envolveu sua cintura.
Nenhuma palavra.
Apenas a distância diminuindo, o reconhecimento do toque e
aquele alívio silencioso de quem finalmente encontra aquilo que julgava
perdido.
Aproximaram os rostos.
E se beijaram.
Foi o melhor beijo de ambos.
Talvez porque não fosse apenas um beijo.
Era a saudade encontrando o corpo que a havia causado.
Era o amor chegando, enfim, ao lugar onde sempre estivera.
E, naquele instante, não havia mais medo.
Nem dúvida.
Nem despedida.
Uma música: Why — Annie Lennox.
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