31/10/2026

A sutileza de uma presença

 

Há silêncios que, sem pronunciar palavra, fazem-se notar.
Presenças que, mesmo à distância, encontram maneiras discretas de nos alcançar:
sutis, desprovidas de qualquer reivindicação de palco.

Um relance sem pressa,
um rastro quase imperceptível
que contenta e acalma a alma,
pois te sinto.

Não teceste uma única linha de palavras.
Não trazes contigo grandes gestos, promessas ou discursos capazes de justificar tua intenção.
Há apenas uma maneira particular de ocupar o instante,
uma espécie de quietude que, sem alarde, modifica a disposição da paisagem.

E é nesse teu silêncio,
nesse espaço que habitas discretamente,
que se desenha a certeza de tua permanência,
por mim desejada.

Um gesto teu, mínimo,
sutil como a respiração suspensa de alguém que não partiu,
basta-me para sentir que ainda me contemplas.

O ambiente permanece o mesmo,
os ruídos conservam sua frequência,
os relógios insistem na mesma marcha.

Ainda assim, alguma coisa se desloca.
O que antes parecia indiferente adquire contornos,
certos instantes prolongam-se sem motivo aparente
e até o silêncio assume outra textura:

quase consigo tatear tua pele.

Guardas uma elegância rara, ainda que singela:
a delicadeza de um simples olhar à distância,
em contraste com o meu querer,
que desejaria vê-lo convertido em voz.

Sem me cobrares respostas ou exigires aproximação,
manténs-te nos bastidores,
habitando o intervalo exato entre o meu desejo e a contemplação.

Há um magnetismo sóbrio nessa tua contenção,
um jogo de sombras em que tua intenção não se oferece por inteiro,
mas ainda assim me provoca êxtase.

Em mim, teu efeito desdobra-se num despertar silencioso.
Nenhuma expectativa é forçada;
os detalhes mais simples do cotidiano adquirem uma relevância densa, quase física.

Meu olhar passa a deter-se na textura dos instantes
com uma sede nova,
como se algo adormecido em mim
tivesse recebido teu toque invisível.

E eu gosto!

Pois tua presença não exige nomes ou explicações.
Pouco importa a promessa que me tragas;
basta-me a força discreta daquilo que não alardeias.

Sem mover uma única pedra da minha paisagem exterior,
modificaste por completo minha maneira de olhar o mundo.

Não julgues minha imaginação ramificada,
pois é nela que encontro repouso.

Há encontros que não precisam de acontecimentos extraordinários para adquirir significado.
Algumas presenças não mudam o mundo;
alteram apenas o lugar de onde o observamos.

E isso,
quando não há como alterar o cenário nem as escolhas,
por vezes, é suficiente.

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