Onde as pessoas se esbarram sem se enxergar,
ela caminhava.
O clamor da cidade era um eco abafado, distante.
Em meio à multidão fervilhante,
um silêncio imenso a habitava.
Levava nos lábios um sorriso forçado —
máscara polida com que disfarçava do mundo a dor invisível.
Por trás daquela tez serena, porém,
escondia-se uma amargura de fel,
tão profunda quanto o abismo dos tempos,
que olhar algum ousaria decifrar.
As obrigações mais triviais
erguiam-se diante dela como montanhas,
imensas, quase intransponíveis.
Havia, contudo, um esforço amplo e silencioso
em cada gesto:
erguer-se do leito,
atar os cordões,
atravessar a porta.
Por dentro, a mente fervilhava
num ciclo contínuo e sufocante.
Lembranças antigas vinham cobrar
o que jamais fora dito;
o presente pesava sobre os ombros;
e o futuro se desenhava em cenários
que a atormentavam sem trégua.
Desprovido de matizes, tornara-se o mundo.
As cores vivas da tarde desbotavam em tons de cinza;
a existência convertera-se em fútil representação
e do prazer esvaíra-se a menor centelha.
Mais do que a ausência do gosto doce da vida,
faltava-lhe até mesmo o anseio de buscá-lo.
Flutuava no vácuo de uma apatia cruciante.
Os dias passavam como um filme célere,
enquanto, por dentro, arrastava-se
a lentidão aflitiva de uma solidão em meio à multidão.
Seus olhos, contudo, denunciavam a aflição,
mas ninguém ousava decifrá-los.
Já não havia lágrimas.
Os lenitivos cumpriam seu papel.
Eis que, sem que a brisa anunciasse
ou a razão revelasse o destino,
o nevoeiro se fende.
Tão sutil quanto um eclipse,
regressa à alma uma chama de existência,
como se o suplício anterior
jamais tivesse habitado aquele corpo.
Renasce nos olhos a apetência pelos dias
e a mente, enfim, silencia seu trovão.
Um sopro de esperança infunde-lhe o desejo,
devolve o riso genuíno aos lábios
e o calor às mãos.
De repente, o mundo volta a pulsar
em acordes vibrantes.
Ressuscita, intacto e luminoso,
o desejo de caminhar entre a multidão,
decifrar os rostos,
organizar o caos
e reconhecer-se novamente no mundo.
Anuncia à própria existência o seu regresso
e sussurra uma prece:
que lhe seja permitido permanecer.
E se a brevidade lhe roubar as forças,
o vigor e a beleza que a vida irradia,
o pranto já não a assusta.
Ela aprendeu a ressurgir
das próprias cinzas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário