Deixei a porta entreaberta sem admitir que esperava. Nem
sequer percebi o instante em que a abri; julguei apenas permitir que a brisa
passasse, enquanto aguardava, em segredo, o sobressalto suave da tua presença.
Havia em mim a crença, ingênua e serena, de que o silêncio
apenas resguardava o tempo de um chamado que viria à sua hora, como se certos
encontros obedecessem à cadência natural das coisas destinadas a se encontrar.
Estreitei o tempo no aguardo de um sinal, convencida de que
a omissão era resguardo, não esquecimento.
Aos poucos, contudo, a ausência transmutou-se em linguagem.
O silêncio deixou de ser pausa e passou a constituir uma resposta inteira,
mantendo aceso um diálogo que, sem que eu percebesse, se tornara monólogo.
Ofereci concessões, deixei espaços vazios que imaginei serem
preenchidos por ti. Mas os passos não encurtaram a distância, e onde antes
florescia a expectativa de aproximação instalou-se o peso denso de um cansaço
sem repouso.
O vínculo se desfez justamente onde residia a ânsia de
conhecer. O que poderia ter sido encontro tornou-se a solidão de quem, por
tempo demais, sustentou sozinha a possibilidade de um nós. E, ainda assim, o
desejo permaneceu intacto. Eis a contradição que me dilacera: o sentimento não
se extingue no instante em que a espera se esgota.
Recuo não por haver deixado de querer, mas por reconhecer a
impossibilidade de carregar, desacompanhada, o peso de duas existências. Há um
luto miúdo pelo que se viveu, mas sobretudo pelo que nunca chegou a ser; pelo
encontro que se desenhou em potência e que a omissão condenou ao abismo das
palavras não ditas e dos passos que não vieram.
Foi preciso recolher os próprios anseios, um a um, e
reconhecer que a delicadeza também tem limites. Depois de sucessivas e sutis
desilusões, amadureceu em mim a necessidade de retroceder — não como quem
renuncia ao que deseja, mas como quem se recusa a desaparecer dentro da espera.
Fecho a porta que por tanto tempo mantive entreaberta. Sem
alarde, sem ultimatos, sem a certeza de que, do outro lado, alguém perceberá o
discreto estalo da fechadura. Não giro a chave. Talvez por ainda existir em mim
uma fresta de esperança; talvez porque nem toda despedida precise negar a
possibilidade de um retorno. Mas já não permaneço à soleira, atenta a cada
ruído, confundindo qualquer sopro com a chegada que imaginei.
Parto sem a farsa da indiferença. Não me exijo a frieza de
quem finge nada ter sentido, tampouco busco no esquecimento uma vitória inútil.
Fica a tristeza serena de quem precisou aceitar os limites de um sentimento que
não encontrou correspondência, mas que, pouco a pouco, recupera o domínio dos
próprios passos.
Se a memória conservar o rastro daquele abraço que não
chegou a acontecer, no presente procuro sustentar a lucidez: deixo de esperar
não porque tenha deixado de desejar, mas porque já não quero me demorar onde
minha presença não encontra resposta.
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