24/10/2026

A Elegância da Renúncia (Trilogia: A Poesia)


No espelho, a noite em sombras se derrama,
E aos meus lábios retorna o gosto ausente;
Guardo na pele o ardor ainda latente,
Enquanto o teu silêncio sufoca a chama.

Das horas que te dei desfaço o laço,
Recolho o que em mim deixei exposto;
Não levo aos teus, meu derradeiro rosto,
Nem peço ao teu silêncio algum abraço.

Se em minha carne teu vestígio perdura,
Não há de ser senhor da minha sorte;
Sei partir, embora o próprio adeus me corte,
Sem fazer da saudade uma clausura.

De seda e sombra visto a despedida,
E em meu silêncio a altivez recomponho;
Não te reclamo o que desejo e sonho,
Nem faço do teu querer minha medida.

Que fique entre nós o indizível perfume,
A voz suspensa, o gesto que não veio;
Deixo-te a noite, o espaço e o devaneio,
E em mim preservo o que a ausência não consume.

Não há rancor no adeus que não proclamo,
Nem faço da partida um modo de ferir;
O que não veio, não hei de exigir,
Pois livre sigo — e ainda assim te amo.

E se algum dia a tua lembrança me procura,
Que encontre em mim a mesma chama altiva;
Não mais à tua espera, mas ainda viva,
Senhora do desejo e da própria ternura.


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