03/10/2026

O lugar que te pertence...

 ... enquanto ainda habitas em mim.


Há, no silêncio que entre nós se fez habitar, um desterro súbito que me paralisa a alma e retém os passos.

De minha parte, acenei com uma linguagem muda dos corpos e no tocar inadvertido dos dedos; na travessia demorada do olhar, desenhei a intenção implícita de amar-te.

Mede-se o meu amor pela mesma régua com que medes essa ausência: um abismo quieto, onde nem o teu procurar se faz ruidoso, nem o meu avanço se faz audaz.

Entretanto, enquanto cogito, guardo a espera: ordeno os dias e ornamento a casa da alma para que te seja abrigo.

Recuso-me ao gesto derradeiro das palavras; preservo velado o meu querer explícito, deixando as linhas em suspenso para resguardar meu espírito.

Ardem em mim vontades densas — o desejo vertiginoso de estreitar-te em um abraço longo, de perder as horas no fluxo contínuo de uma conversa inteira e intensa, de apenas escutar a gravidade da tua voz.

Não me aproximo sem que tua permissão seja a porta aberta, pois desconheço se o meu calor te é bem-vindo ou se preferes o teu próprio refúgio.

Então recuo.

O tempo, esse lento e febril erosivo, cobriu de névoa os traços exatos do teu rosto; já não consigo reconstituir com clareza a precisão das tuas linhas.

Contudo, em eco obstinado, a tua voz calma insiste em ressoar na penumbra dos meus pensamentos, pronunciando meu nome como se nunca tivesse partido.

E é talvez aí que a saudade se esconda: não naquilo que recordo de ti, mas naquilo que já não consigo lembrar sem desejar outra vez.

Ainda trago comigo cicatrizes antigas, marcas de outras lutas e mágoas que ainda pedem zelo; por isso, a travessia que rompe a distância precisa ser passo teu, convite manifesto para que eu permaneça.

Não adormeço minha vida à espera de sombras ou resquícios do teu tempo; tampouco busco a submissão de quem se rende ou se anula diante do outro.

Quero a altivez de estar apaixonada, o entrelaçar vivo em que não te tornas o meu centro, mas acrescentas a tua existência ao meu horizonte.

Esperarei, pois, que tua voz rompa o jejum das tuas procuras e reclame o lugar que te deixei aberto.

Ou partirei deixando meus vestígios; versos e prosas gravados em livros, denunciando a imensidão do meu amor e o quanto fui, por ti, desconhecida.

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