... enquanto ainda habitas em mim.
Há, no silêncio que entre nós se fez habitar, um desterro
súbito que me paralisa a alma e retém os passos.
De minha parte, acenei com uma linguagem muda dos corpos e
no tocar inadvertido dos dedos; na travessia demorada do olhar, desenhei a
intenção implícita de amar-te.
Mede-se o meu amor pela mesma régua com que medes essa
ausência: um abismo quieto, onde nem o teu procurar se faz ruidoso, nem o meu
avanço se faz audaz.
Entretanto, enquanto cogito, guardo a espera: ordeno os dias
e ornamento a casa da alma para que te seja abrigo.
Recuso-me ao gesto derradeiro das palavras; preservo velado
o meu querer explícito, deixando as linhas em suspenso para resguardar meu
espírito.
Ardem em mim vontades densas — o desejo vertiginoso de
estreitar-te em um abraço longo, de perder as horas no fluxo contínuo de uma
conversa inteira e intensa, de apenas escutar a gravidade da tua voz.
Não me aproximo sem que tua permissão seja a porta aberta,
pois desconheço se o meu calor te é bem-vindo ou se preferes o teu próprio
refúgio.
Então recuo.
O tempo, esse lento e febril erosivo, cobriu de névoa os
traços exatos do teu rosto; já não consigo reconstituir com clareza a precisão
das tuas linhas.
Contudo, em eco obstinado, a tua voz calma insiste em
ressoar na penumbra dos meus pensamentos, pronunciando meu nome como se nunca
tivesse partido.
E é talvez aí que a saudade se esconda: não naquilo que
recordo de ti, mas naquilo que já não consigo lembrar sem desejar outra vez.
Ainda trago comigo cicatrizes antigas, marcas de outras
lutas e mágoas que ainda pedem zelo; por isso, a travessia que rompe a
distância precisa ser passo teu, convite manifesto para que eu permaneça.
Não adormeço minha vida à espera de sombras ou resquícios do
teu tempo; tampouco busco a submissão de quem se rende ou se anula diante do
outro.
Quero a altivez de estar apaixonada, o entrelaçar vivo em
que não te tornas o meu centro, mas acrescentas a tua existência ao meu
horizonte.
Esperarei, pois, que tua voz rompa o jejum das tuas procuras
e reclame o lugar que te deixei aberto.
Ou partirei deixando meus vestígios; versos e prosas
gravados em livros, denunciando a imensidão do meu amor e o quanto fui, por ti,
desconhecida.
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