O despertador toca. O dia amanhece.
Não há transição suave entre o repouso e a consciência: ela
desperta já submersa, sem que tenha havido noite de tempestade ou ruína que
explique o naufrágio.
Acorda para a existência como quem recebe uma conta vencida
antes mesmo de o dia começar; um peso se instala sobre o peito antes do
primeiro movimento.
Mas o mecanismo do mundo não tolera pausas. As horas
sucedem-se, as obrigações reclamam cumprimento.
Ela se levanta, cumpre os ritos da aparência e da presença.
Ninguém suspeita que, sob a impecável regularidade de seus gestos, uma
estrutura inteira se desfaz em silêncio.
Porque ela sorri.
Não há, em seu rosto, tradução fiel do tumulto que a devora.
A exaustão não lhe rouba os passos; transforma-os em travessias, cada movimento
exigindo-lhe forças que já não sabe de onde extrair. E talvez seja justamente
essa continuidade que a condene à invisibilidade: aos olhos alheios, quem
permanece de pé não pode estar desmoronando.
Ela continua.
E, no silêncio em que se refugia, a solidão se mistura ao
desprezo de si mesma por não conseguir confessar o vazio que a acompanha. Há um
amargor que se deposita lentamente sobre as coisas, até lhes subtrair o sabor.
O que antes despertava curiosidade torna-se indiferente; o
que outrora anunciava possibilidades já não acena com o futuro, senão com a
repetição dos dias. O mundo conserva seus ruídos, suas cores, suas urgências. É
ela quem, por dentro, perde a capacidade de alcançá-los.
Desfazem-se as esperanças, as certezas, os desejos, os
fascínios e os êxtases. Em seu lugar, instala-se o medo de jamais reencontrar o
caminho de volta à vida. O que resta é um vazio atravessado pelo desamparo,
pelo desgaste emocional, pela apatia; uma sensação persistente de
insuficiência, como se nada do que fizesse pudesse absolvê-la da própria
inutilidade. E a mente, exaurida de sustentar o peso dos pensamentos, arrasta o
corpo para o cansaço, até que até mesmo permanecer desperta se torne um esforço.
O vazio cresce para além de qualquer medida e corrói, pouco
a pouco, o sentido das coisas. O olhar atravessa o mundo sem encontrá-lo; o
corpo habita a própria existência sem nela se reconhecer. E, diante desse
abismo de sombras, não se vislumbra margem, passagem ou sequer a promessa de um
caminho de volta.
Mas o sorriso permanece.
Há palavras para o que sente, talvez. O que não há é a
certeza de que alguém saberá ouvi-las sem tentar corrigi-las, diminuí-las ou
apressar-lhe a recuperação.
Por isso, cala-se. Não porque nada tenha a dizer, mas porque
o esforço de traduzir a própria agonia também a exaure. Há um grito inteiro
aprisionado atrás de respostas banais, uma súplica disfarçada de rotina, um
pedido de socorro que não encontra passagem entre o que sente e o que consegue
revelar.
Eis sua solidão suprema: não a ausência física de outros
corpos, mas o isolamento de quem se vê obrigada a habitar a própria mente como
um quarto fechado. Do lado de dentro, a vida prossegue além das paredes; ela a
escuta, talvez até a deseje, mas já não encontra forças para atravessar a
porta.
Ela não precisa que lhe ensinem a sorrir, que lhe enumerem
motivos para agradecer ou que lhe recordem tudo o que ainda consegue fazer.
Precisa, talvez, que alguém desconfie da aparência de normalidade; que
compreenda que a funcionalidade não é prova de serenidade, que a ausência de
lágrimas não significa ausência de dor. Que há quem cumpra todos os deveres
enquanto, secretamente, já não sabe como suportar o peso de existir. Alguém que
compreenda que a produtividade pode ser apenas o disfarce mais refinado do
desespero.
E o mais amargo é que, amanhã, ela provavelmente se
levantará outra vez. Vestirá a roupa, organizará os pensamentos possíveis,
responderá ao mundo com a voz de sempre.
O mundo reconhecerá nela a mesma mulher de ontem.
Ninguém haverá de compreender a causa desse eclipse íntimo,
porque nem ela mesma encontra sentido para a sombra que a habita. Ainda assim,
haverá de regressar. Não porque o vazio tenha desaparecido, nem porque a vida
lhe tenha oferecido respostas, mas porque, em algum lugar de si, persiste uma
força que a escuridão não conseguiu extinguir.
E, quando voltar a sentir o mundo para além da própria dor,
talvez ninguém perceba. Alguém, porém, há de sorrir para ela sem lhe pedir
explicações, como quem silenciosamente entenda e diz: que bom que você ficou. Eu
sei o quanto lhe custou regressar à vida.
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