10/10/2026

O mosaico do vazio


O despertador toca. O dia amanhece.

Não há transição suave entre o repouso e a consciência: ela desperta já submersa, sem que tenha havido noite de tempestade ou ruína que explique o naufrágio.

Acorda para a existência como quem recebe uma conta vencida antes mesmo de o dia começar; um peso se instala sobre o peito antes do primeiro movimento.

Mas o mecanismo do mundo não tolera pausas. As horas sucedem-se, as obrigações reclamam cumprimento.

Ela se levanta, cumpre os ritos da aparência e da presença. Ninguém suspeita que, sob a impecável regularidade de seus gestos, uma estrutura inteira se desfaz em silêncio.

Porque ela sorri.

Não há, em seu rosto, tradução fiel do tumulto que a devora. A exaustão não lhe rouba os passos; transforma-os em travessias, cada movimento exigindo-lhe forças que já não sabe de onde extrair. E talvez seja justamente essa continuidade que a condene à invisibilidade: aos olhos alheios, quem permanece de pé não pode estar desmoronando.

Ela continua.

E, no silêncio em que se refugia, a solidão se mistura ao desprezo de si mesma por não conseguir confessar o vazio que a acompanha. Há um amargor que se deposita lentamente sobre as coisas, até lhes subtrair o sabor.

O que antes despertava curiosidade torna-se indiferente; o que outrora anunciava possibilidades já não acena com o futuro, senão com a repetição dos dias. O mundo conserva seus ruídos, suas cores, suas urgências. É ela quem, por dentro, perde a capacidade de alcançá-los.

Desfazem-se as esperanças, as certezas, os desejos, os fascínios e os êxtases. Em seu lugar, instala-se o medo de jamais reencontrar o caminho de volta à vida. O que resta é um vazio atravessado pelo desamparo, pelo desgaste emocional, pela apatia; uma sensação persistente de insuficiência, como se nada do que fizesse pudesse absolvê-la da própria inutilidade. E a mente, exaurida de sustentar o peso dos pensamentos, arrasta o corpo para o cansaço, até que até mesmo permanecer desperta se torne um esforço.

O vazio cresce para além de qualquer medida e corrói, pouco a pouco, o sentido das coisas. O olhar atravessa o mundo sem encontrá-lo; o corpo habita a própria existência sem nela se reconhecer. E, diante desse abismo de sombras, não se vislumbra margem, passagem ou sequer a promessa de um caminho de volta.

Mas o sorriso permanece.

Há palavras para o que sente, talvez. O que não há é a certeza de que alguém saberá ouvi-las sem tentar corrigi-las, diminuí-las ou apressar-lhe a recuperação.

Por isso, cala-se. Não porque nada tenha a dizer, mas porque o esforço de traduzir a própria agonia também a exaure. Há um grito inteiro aprisionado atrás de respostas banais, uma súplica disfarçada de rotina, um pedido de socorro que não encontra passagem entre o que sente e o que consegue revelar.

Eis sua solidão suprema: não a ausência física de outros corpos, mas o isolamento de quem se vê obrigada a habitar a própria mente como um quarto fechado. Do lado de dentro, a vida prossegue além das paredes; ela a escuta, talvez até a deseje, mas já não encontra forças para atravessar a porta.

Ela não precisa que lhe ensinem a sorrir, que lhe enumerem motivos para agradecer ou que lhe recordem tudo o que ainda consegue fazer. Precisa, talvez, que alguém desconfie da aparência de normalidade; que compreenda que a funcionalidade não é prova de serenidade, que a ausência de lágrimas não significa ausência de dor. Que há quem cumpra todos os deveres enquanto, secretamente, já não sabe como suportar o peso de existir. Alguém que compreenda que a produtividade pode ser apenas o disfarce mais refinado do desespero.

E o mais amargo é que, amanhã, ela provavelmente se levantará outra vez. Vestirá a roupa, organizará os pensamentos possíveis, responderá ao mundo com a voz de sempre.

O mundo reconhecerá nela a mesma mulher de ontem.

Ninguém haverá de compreender a causa desse eclipse íntimo, porque nem ela mesma encontra sentido para a sombra que a habita. Ainda assim, haverá de regressar. Não porque o vazio tenha desaparecido, nem porque a vida lhe tenha oferecido respostas, mas porque, em algum lugar de si, persiste uma força que a escuridão não conseguiu extinguir.

E, quando voltar a sentir o mundo para além da própria dor, talvez ninguém perceba. Alguém, porém, há de sorrir para ela sem lhe pedir explicações, como quem silenciosamente entenda e diz: que bom que você ficou. Eu sei o quanto lhe custou regressar à vida.


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