... Entre os intervalos, a imaginação preenche as lacunas.
O mundo lá fora deixa de existir quando trancamos a porta. O
relógio suspende o tempo exterior no instante em que os olhares se enlaçam.
A pulsação do sangue desperta em compasso célere, e a
distância entre nós colapsa no relevo da respiração contida, na gravidade
súbita de um sorriso que vacila entre o recato e a ânsia.
Uma solenidade quase mística se faz; um magnetismo
incontestável que dispensa prefácios e encurta a distância.
Fixo os olhos nos teus e decifro, sem necessidade de
tradução, a nossa urgência em avançar.
E, na promessa irrevogável do toque, há uma atmosfera
rarefeita em que o ar parece denso.
Da ponta dos teus dedos, a carícia percorre a curva do meu
ombro, ascende sutilmente pela nuca e se perde entre meus cabelos. O contato
faz a pele vibrar, enquanto nossas mãos percorrem a textura do tecido até
alcançarem o calor genuíno da pele.
Nossos rostos se demoram numa carícia silenciosa, antes que
nossas bocas finalmente se toquem.
O leve encontro dos lábios saboreia a espera, prolongando-a
por alguns segundos, até que as línguas encontrem um ritmo profundo, enquanto
nossos corpos tendem a ocupar o mesmo espaço.
Entrelaçamo-nos em um abraço estreito, e a pele responde em
calafrios, revelando uma geografia invisível, ainda por ser descoberta.
Há um território que nenhum mapa alcança e nenhum dicionário
consegue descrever: o vocabulário tátil da expectativa, a erudição do desejo
traduzida em gestos mínimos.
O ritmo se intensifica; as respirações se confundem em
murmúrios entrecortados.
As vestes ficam dispersas entre os móveis e, com as mãos
firmes em minha cintura, conduzes meu corpo para junto do teu, onde minhas
pernas te enlaçam e o mundo ao redor perde o prumo.
Já não há censura nem pudor; o mistério se cumpre e o
intangível se realiza.
É a liturgia dos sentidos, entre excessos e ruídos. Cada
centímetro conquistado é um tratado de intimidade escrito à flor da pele, onde
a sofisticação do afeto se alia à força crua da vontade contida por tanto
tempo.
Quando o ápice dessa tensão finalmente se acomoda, a alma lê
a última página do enredo e se aquieta, plenamente saciada no calor de nossos
movimentos.
Resta apenas a quietude profunda da satisfação — aquele
estado de graça em que o corpo, enfim em paz consigo e com o outro, compreende
que a viagem inteira valia exatamente por este momento.
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