14/07/2010

As cinzas


Ele mal via a hora de voltar para casa.

Havia dias em que recusava convites, inventava desculpas e atravessava a cidade com pressa. Queria apenas estar com ela.

Gostava de observá-la em silêncio.

Admirava o vestido branco de que ela tanto gostava, o jeito delicado de caminhar, a serenidade do seu sorriso. Bastava olhar para ela para acreditar que o tempo era incapaz de apagar a beleza de algumas pessoas.

Todas as semanas levava flores.

Dizia, como se ainda pudesse ser ouvido, que a amava. Prometia fidelidade eterna e repetia que nenhuma outra mulher ocuparia o lugar que ela havia conquistado em sua vida.

Era um ritual.

Talvez uma forma de permanecer perto.

Naquela tarde, porém, encontrou o prédio cercado por fumaça.

O apartamento estava em chamas.

Sem pensar no perigo, tentou entrar.

Nada lhe importava além das poucas lembranças que ainda guardava dela e que, naquele instante, desapareciam consumidas pelo fogo.

Quando finalmente conseguiu chegar ao quarto, encontrou apenas a cama envolvida pelas últimas labaredas.

Por um instante, desejou deitar-se ali.

Fechou os olhos, imaginando que talvez pudesse reencontrá-la.

Foi então que ouviu sua voz.

Suave.

Serena.

Como se viesse de muito longe.

— Ainda não.

Ele recuou.

Saiu do apartamento cambaleando, sem entender se a voz havia sido lembrança, sonho ou despedida.

Morreu de infarto poucos metros depois, diante do edifício onde, anos antes, ela também perdera a vida.

Talvez o amor nunca tenha deixado aquele lugar.

Ou talvez algumas despedidas simplesmente levem mais tempo para acontecer.


16 comentários:

Marinha Luiza disse...

Que coisa sinistra!

Priscila Rodrigues disse...

Rs.. Estou meio "Dark" hoje, Maluh.

ONG ALERTA disse...

Talvez perdido em si mesmo, paz.
Beijo Lisette

Priscila Rodrigues disse...

Só se for o rapaz do texto, Lisette ;)

Fernando Bueno disse...

diria que alternativo.. hehehe..

Ronaldo disse...

que coisa não? eu hein....

tudo em paz amiga?
saudade
bjssss
Ro

Priscila Rodrigues disse...

Fê.. vc me entende.. Rs Rs.


Ronaldo: As vezes acontece essas coisas.. Rs Rs. Estou bem, passando lá no seu =)

Anônimo disse...

Que conto triste minha flor.
Me leva à acreditar que os amores verdadeiros se vão de uma forma tão trágica quando muitos espalhados por aí fazem dele o que bem entendem sem se dar conta do quanto estão machucando.
Parabéns minha flor.
Beijokas.

Sônia Silvino (CRAZY ABOUT BLOGS) disse...

Ai, amiga!
Fiquei um pouco tensa, mas gostei!
Bjkas, muuuuuitas!tornomin

silvioafonso disse...

.

Tivesse eu o poder da
transcendência e eu voltava, como
venho agora. Beijava os seus
cabelos e num sopro de amor,
quase divino, pegava a flor que
você deixou, no dia em que foi
embora...

silvioafonso.



.

Tetê disse...

Esse seu conto é uma boa reflexão. Muitas vezes achamos que histórias de amor terminam com "final feliz", mas essas coisas acontecem de fato! Pri querida... Obrigada pela visita ao Livre Pensamento! Bom final de semana! Bjks Tetê

Ronaldo disse...

te mandei um email, depois leia e me responda, acho que não vai dar tempo para esse final de semana, mas para o proximo tem que dar

bjssssssssss

Biagio Grisi disse...

Olá Priscila
São tantos para visitar que só cheguei em ti agora.
Um abraço e um feliz final de semana
MUITA PAZ

Unknown disse...

olha guns vc não gosta

Priscila Rodrigues disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Priscila Rodrigues disse...

Pérola.. minha Flor, há casos e casos, como sabemos.. obrigada!

Sônia.. Obrigada pela visita =)

Silvio.. Lindo poema, obrigada!

Tetê.. você entendeu perfeitamente, agradeço seu comentário..

Briágio.. Eu entendo perfeitamente essa falta de tempo.. rs rs.

Fábio.. Eu adoro Guns.. =P

Obrigada, meus amores.

Beijos.